Inquisidores

Dizia um amigo meu que Portugal tinha dois tipos de pessoas: marinheiros e inquisidores. Os primeiros emigravam; os outros engordavam a fazer a vida negra aos primeiros que não pudessem partir. Isto a propósito de um desespero inquisitorial que anda aí no ar a engrossar-se em torno do caso de Mariana Avelãs, das últimas manifs «inorgânicas» e dos pedidos de uma polícia às televisões para recolha de imagens dos acontecimentos diante da Assembleia da República. Seria tudo tão mais fácil se não houvesse vídeo, nem blogs, nem Facebook – sem Internet!
Consta pelas más-línguas que a Internet foi criada no geral para não poder ser controlada, e no particular para deitar abaixo a (extinta) União Soviética (1945-1991). É filha da ARPA-Net (Advanced Research and Projects Agency) um organismo estatal; nasceu no Pentágono (1969); foi financiada pelo Governo Americano durante toda a Guerra Fria (1945-1991). Tinha por intuito salvaguardar as ligações, tornando-as invulneráveis até a um ataque nuclear.
Todos achámos bem que desse voz aos oprimidos, denunciasse abusos e corrupções: é o GRANDE instrumento da Democracia. Tem-nos garantido a liberdade de informação, mas muitos dos seus usuários foram já presos por, através dela, expressarem as suas opiniões politicamente incorrectas (a lista é longa, atravessa todos os continentes).
São agora um outro tipo de crias suas – o Wikileaks, Twitter, Facebook – que passaram a morder a mão dos progenitores. Quando do seu «fecho» (Dezembro 2010) o Wikileaks ficou de imediato com 1697 ‘mirror sites’/cópias.
A posição dos poderes é dúplice. Por um lado dá jeito aos políticos mandar mensagens pelo Facebook, organizar campanhas eleitorais, perceber os interesses dos «amigos» das respectivas páginas – e a estes perceber o que andarão os candidatos a fazer.
Por outro, desagrada porque outras forças (a seguir o exemplo do Wikileaks já há o TugaLeaks, e o Anonymous) também a utilizam para tornar pública informação que se pretende seja sonegada ao ‘demos’ em geral. Foi triste ver a perseguição movida a Julian Assange – entretanto firme a twittar. Países como o Cazaquistão estão a pôr processos ao Goolge, Twitter e Facebook porque querem «bloquear» as mensagens de opositores ao regime, sem sucesso imagina-se.
Por cá temos o caso agora de Mariana Avelãs, arguida a  «8 de Novembro pelo crime de organização de manifestação não comunicada» – pelo Facebook. A nossa Mariana tem quase mil amigos. A página do grupo Que se lixe a Troika – tem mais de 20.000 membros. Será que esses amigos – facilmente identificáveis, com fotos de cara destapada – irão ser também constituídos arguidos por terem participado num passeio não autorizado? E os que também foram e não confirmaram a presença (como eu) – irão ser controlados a partir das tais imagens da tv que nenhuma polícia pediu, ninguém autorizou, ninguém viu, mas deu direito à suspensão de um jornalista? Está-me cá a parecer que as mil pulseiras electrónicas que estão a ser encomendadas pela Ministra da Justiça não vão chegar.

 

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