
«Chamo-me Safo. O meu cântico está para os cânticos das mulheres como Homero está para o cântico dos homens»: assim nos apresenta Antípatro de Sídon (II A.C.) aquela a quem Platão chamou a décima Musa.
Safo (612-568? A.C.) nasceu em Eressus, e pertenceu à aristocracia de Lesbos. Junto com o poeta e amigo Alceu envolve-se em revoltas contra a tirania – de Mirsilo, e depois Pítaco– sendo exilada para a Sicília. Já viúva, regressa com sua filha Cleis a Mitilene, onde funda um círculo feminino dedicado ao culto de Afrodite, por muitos interpretado como escola de canto e dança para meninas de família. A sua actividade política – rara na época para uma mulher – é sistematicamente ofuscada pelo picante das possíveis relações homossexuais entre professora e alunas (prática pedagógica de então, também vigente nas escolas das suas rivais Andrómeda e Gorgo), a que legou o seu nome e o da sua ilha. Reza uma lenda que, devido ao desprezo do jovem e belo Faonte, Safo se terá suicidado por amor, atirando-se das rochas leucádias ao mar.
Antologiados pelos Alexandrinos em 9 volumes, os seus poemas perderam-se, ou foram destruídos, tidos por imorais. Sobreviveram apenas uma ode, um canto a Atis, e cerca de duzentos fragmentos – alguns apenas uma palavra. Neles se atestam ainda as razões da sua celebridade: a confissão delicada de fortes sentimentos passionais (que vai fundamentar a descrição latina da patologia do amor); a inovação técnica (a estrofe e o metro sáficos, imitados por Horácio – e até Camões); o uso do dialecto natal, e a primeira referência à imortalidade pela escrita.
Contra o costume, esta não é a primeira tradução de Safo e, apesar de bilingue e do cuidado de Pedro Alvim, não será mais poética que a esquecida versão de Eugénio de Andrade («Poemas e Fragmentos de Safo», Limiar, Lisboa, 1977, 2ª. Ed.). Pedro Alvim dá nomes aos poemas, não elimina apócrifos, adopta um ritmo pesado: «O amor sacode/ meu coração, tal/ o vento caindo/ sobre os robles/ da montanha» («Vento», pp. 65). Ambos jogam com a prosódia sáfica, mas Eugénio de Andrade consegue uma mais profunda simplicidade: «Outra vez Eros me agita o coração / assim nos montes/ o vento sacode os carvalhos.» (p.51). Opiniões.
Mas nunca deixe de ler Safo, a musa coroada de violetas, honrada em Mitilene com a cunhagem do seu busto em moedas, e a quem Atenas erigiu uma estátua da autoria de Silânion, o mestre de Zeuxis.
Há um artigo que dicute as várias traduções por aqui. O livro de Pedro Alvim (ISBN: 972-699-296-6, edição bilingue, Vega, Lisboa, 1991, 107 pp.) estará esgotadíssimo, mas o de Eugénio de Andrade anda por aí.
Helena Barbas
[actualização de artigo publicado a 24.01.1992 no caderno Vida, Independente nº 193]