
Lançada em 1970 na PUF, e logo com um objectivo didáctico, A Tragédia Grega, de Jacqueline de Romilly, revela-se indispensável. Em 1999 Leonor Santa Bárbara assina a sua primeira tradução para português (Edições 70, 166 págs.).
Manual conciso e muito completo, concentra as informações dispersas por tratados e ensaios que indisciplinadamente engrossavam bibliografias. Ponto de partida para a descoberta dos meandros do drama grego, cumpre a sua função primeira de apoio às áreas ligadas à Antiguidade Clássica, estende-se aos Estudos Literários, aos Estudos Teatrais, e esclarece os meros curiosos.
Grande Oficial da Legião de Honra, da Ordem Nacional de Mérito, multi-comendadora, Jacqueline de Romilly nasceu em Chartres (1913). Estudou e doutorou-se na Sorbonne, com Thucydide et l’impérialisme athénien. La pensée de l’historien et la genèse de l’œuvre (1947), e aí ficou a ensinar Literatura Grega (1957-73). Foi a primeira mulher a integrar o corpo docente do Collège de France (1973) e a entrar na Academie des Inscriptions et Belles-Lettres (1975). De entre 30 e tal obras, tem duas dedicadas à educação e o romance Laisse flotter les rubans (1999), mas foram os gregos a dar-lhe a imortalidade.

Começa por definir o género – a Tragédia – explorando o velho tema da sua origem: «trag-oedia», o (im)possível «canto do bode». Discute-lhe a denominação e estrutura. Examina depois as obras que nos chegaram (apenas 32 de entre um milhar) e as características que nos marcaram os seus autores maiores: «Ésquilo ou a tragédia da justiça divina»; «Sófocles ou a tragédia do herói solitário»; «Eurípides ou a tragédia das paixões». Conclui com as modernas polémicas em torno desta forma teatral sem par: as relações com o Mito e a Psicanálise; a actualidade dos problemas encenados; o trágico frente às ideias de fatalidade e absurdo. Refere curiosidades como as únicas, e nunca reproduzidas, qualidades acústicas dos antigos recintos gregos, em que os actores eram (e são) ouvidos na última fila sem microfones.
Enriquece-se com tábuas cronológicas, léxico, bibliografia e notas, numa esmerada tradução de Leonor Santa Bárbara (ela própria responsável por contagiar muitos dos seus alunos com o amor às coisas das antiguidades). O mérito maior deste livro é a pertinência do enquadramento histórico, a recusa em deixar a tragédia grega fugir da Grécia, ou a sua «explosão súbita, breve, fascinante» e sair do período de 80 anos em que se inscreve – a vitória de Salamina (534 a.C.) e a derrota de Atenas por Esparta (404 a.C.) -, morrendo o género com a Polis, com Sófocles, com Ésquilo.
O currículo desta grande historiadora mereceu-lhe a cidadania grega, importantes títulos honoríficos internacionais e a entrada na Academia Francesa em 1988, onde ocupou a cadeira nº 7, como segunda representante feminina dos «Imortais». A primeira eleita foi (a, ironicamente, belga) Marguerite Yourcenar em 1980.
Fundada em 1635 pelo cardeal Richelieu, tendo por divisa «À Imortalidade», a Academia foi recendo no seu seio uns 800 nomes. É composta por 40 membros vitalícios – um por cadeira – eleitos pelos seus pares. A honra advém-lhes por terem contribuído para o esplendor da língua e génio franceses. Quando da concessão da cadeira nº3 a Yourcenar, em 1981, causa burburinho a necessidade de ter que se adaptar o célebre «habit vert» (casaco verde-escuro bordado a ouro, chapéu bicorne, capa e espada) a uma versão com saias, e levantou celeuma a pertinência de lhe ser concedida a espada. A terceira «Imortal» foi Hélène Carrère d’Encausse, nº 14, em 1990, depois primeira secretária perpétua de 1999 até sua morte em 2023. Com tantos «Imortais» e tantos séculos, neste momento, em 36 dos 40 lugares ocupados, 5 são mulheres.
Helena Barbas
[actualização de artigo publicado no Cartaz, Expresso, 02.02.2000]
Livro consultável em bibliotecas por aí – como a da Lusíada – disponível na Sá da Costa (€ 25,00)