
Histórias e regulamentos do Hospital Real de Todos-os-Santos tornados legíveis aos curiosos, pelo livro Registos dos Reinados De D. João II e de D. Manuel I, transcrição de Abílio José Salgado e Anastásia Mestrinho Salgado (Ministério da Saúde, Lisboa, 1996).
Quem por qualquer motivo já teve oportunidade de consultar manuscritos dos séculos XV a XVII sabe como é difícil e morosa a leitura de tais textos, mesmo para especialistas. Nem é tanto o não se entender o português – isso consegue-se, com maior ou menor facilidade, até porque é lenta a evolução da nossa língua. O verdadeiro obstáculo reside, de facto, na decifração da ortografia dos copistas.
Esta tarefa árdua está a ser aliviada pela revolução silenciosa, já em curso, operada pelas opções dos écrans de computador: digitalizados, os textos podem ser aumentados tanto e quanto seja necessário.
Parece que para os copistas antigos, mais ou menos jeitosos, criativos no desenho das letras, a sua preocupação primeira é a mancha estética da página – um rendilhado de arabescos – em vez da legibilidade. A acrescentar a isto, temos a natural decomposição da matéria: o papel que amarelece; as lagartas que dele se vão alimentando; as tintas que o queimam até ao buraco ou se clareiam à transparência. Depois, os nossos copistas têm de ser económicos, poupar no papel: reduzem ao mínimo os espaços em branco, encavalitando as letras na linha e as linhas umas nas outras; usam ou inventam abreviaturas, num estilo quase telegráfico.
A tudo isto, que tornava o trabalho de transcrição muito ingrato mesmo para os apaixonados, acrescenta-se o pouco reconhecimento público que tal tarefa seempre mereceu: não brilham os paleógrafos pelas novas teorias, não espantam com descobertas inéditas. Limitam-se a reproduzir, na humildade do seu labor, o trabalho dos copistas. Com outros meios, é certo (corriam sérios riscos de passar aos óculos com lentes de pyrex), lêem-nos para nós, e com o objectivo igual de transmitir aos outros informações, de legar aos vindouros as coisas do passado, para que se não percam. Tudo isto para dizer que trabalhos como o editado por Abílio José Salgado e Anastásia Mestrinho Salgado nos merecem o maior respeito.
Torna-nos este acessíveis os Registos dos Reinados de D. João II e de D. Manuel I, um códice do século XVI em edição fac-similada – e o leitor pode avaliar por si parte das dificuldades acima referidas. De seguida, são transcritos em português da época mas tornado legível pelas notas. O conjunto de documentos relaciona-se com o antigo Hospital de Todos-os-Santos (o antecessor de S. José) e inclui os Regimentos por que se orienta e administra.
Para além de pormenores mais técnicos e de carácter histórico, depreendem-se daqule livro curiosidades sociológicas bem típicas – e se calhar não tão pouco actuais como isso. No caso das «Capelas», os dinheiros deixados para missas e obras pias, legisla-se sobre desleixos e abusos: «as almas não são sufragadas», porque alguém se abotoa com as verbas destinadas a tal fim (pág. 20). No caso das «ordenações das armas», pretende-se que todos os titulares dos diversos cargos sejam devidamente identificados. Especificam-se as competências e os proventos anuais. Referindo como obrigação dos médicos do hospital a «consulta externa», os autores aventam a hipótese de ter surgido daqui o termo «Banco», hoje associado às urgências: «Utilizava-se, de facto, na referida consulta a chamada ‘mesa das águas’ onde se disporiam em fila os frascos com a urina a ser examinada pelos respectivos físicos e onde se podiam também sangrar os enfermos que aí se apresentavam. Convirá agora esclarecer que a palavra banco também podia indicar uma mesa rectangular, estreita e comprida, como provavelmente seria a referida ‘mesa das águas’.» (pág. 25).
Particularmente interessantes são os «Tangomanos», ou «homens lançados», definidos como «um fenómeno de marginalidade no Ultramar português». Europeus que, seduzidos pelo clima, adoptam usos e costumes dos povos nativos. Por um lado, a sua actividade e comportamento são interditos. Mas o pecado pode ser remido por multa: 10 cruzados em favor do Hospital; e talvez alguns olhos se fechassem, pois serviam de intérpretes aos seus colegas de pele e angariadores de escravos para mercâncias mais lucrativas.
Do folhear do Glossário, há a referir as “Cristaleiras” – as «mulheres cujo ofício era dar clisteres» e que acumulavam com o de Parteiras -, função ainda existente em S. José em 1838, e os Merceeiros e Merceeiras – gente paga para «rezarem diariamente pelas almas dos reis passados, presentes e vindouros» (pág. 536).
O livro traz um prefácio de Borges de Macedo, enquadrando-o em termos do contexto histórico social de uma época em que a miséria do pobre e a doença mesmo dos ricos eram sintoma de maldição – em última instância, a da transitoriedade da vida. Entende ainda que «o estudo dos elementos deixados pelos espólios hospitalares são inestimáveis para considerações científicas dos mais diversos tipos e utilidades» e aventa possíveis explorações históricas, sociais e antropológicas.
Helena Barbas
[actualização de artigo publicado no Cartaz, Expresso, 5.09.1988]
Além de bibliotecas, o livro encontra-se disponível em alfarrabistas – Livraria Trindade, e Sá da Costa