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do assassínio psíquico como uma das belas-artes

“Pere Darou” Heinrich Anton Müller, c. 1920

Assédios e manipulações dos espíritos diagnosticados em dois livros antigos e memoráveis. O primeiro, Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano é da autoria da psiquiatra Marie-France Hirigoyen (Trad. de António Marques, Pergaminho, 223 págs., 1999); o outro, de 1982, tem por título Manipulação dos Espíritos e o modo de lhes fazer frente"Manipulação dos Espíritos e o modo de lhes fazer frente", Alexandre Dorozynski, Trad. Manuel João Gomes, Assírio & Alvim, 1982
Trata-se de um conjunto de ensaios notáveis assinados por vários nomes gordos das ciências sociais, organizados por Alexandre Dorozynski (Trad. de Manuel João Gomes, Assírio & Alvim, 145 págs.), que passou um pouco despercebido. Avisavam-nos os autores sobre os modos e perigos da manipulação das mentes a que todos ficávamos expostos – como sujeito e objecto – a partir do momento em que entrássemos em interacção com outros indivíduos, a quem dávamos ou de quem retínhamos informação, a quem damos, ou de quem recebemos, educação. Com sorte, o livrinho podia ser encontrado nas prateleiras de ciências ocultas – secção de espiritismo – agora só em alguns alfarrabistas. Por sua vez, este Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano, que correu o risco de ir parar a uma outra prateleira qualquer, trata-se de um dos livros mais lúcidos, impressionantes e aterradores de muitos tempos. Debruça-se, então, sobre o discreto exercício da perversidade a que todos estamos sujeitos na vida de todos os dias, como carrascos ou vítimas, não de estranhos, mas dos que nos estão perto: colegas de trabalho, cônjuges, pais e filhos. E é aterrador porque, lendo a quantidade de casos-exemplo que Marie France Hirigoyen descreve e analisa pormenorizadamente, reconhecemos-lhes os cenários, e bastaria mudar-lhes os nomes para outros mais familiares a cada um de nós, para descobri-los reencenados ao pé da nossa porta, dentro e fora de casa. O susto maior é que todos conhecemos uma vítima de um perverso – actualmente “narcisista” – e todos simpatizamos mais com o perverso, aumentando a culpabilidade e sofrimento da vítima (pese embora o género das palavras em português, acresce que nem todos os perversos são homens, nem todas as vítimas mulheres).

"Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano", Marie-France Hirigoyen, Trad. António Marques, Pergaminho, 223 págs., 1999Marie-France é psiquiatra, especialista em «vitimologia» – uma (então) recente disciplina de origem americana, descendente da criminologia, que procura estudar os motivos e processos de vitimização – e aplica os conhecimentos dessa nova área à psicoterapia individual: «Quando os terapeutas têm, não obstante, tentado ajudar as vítimas, pode acontecer que, pela sua hesitação em nomear um agressor e um agredido, tenham reforçado a culpabilidade da vítima e, por isso  mesmo, agravado o seu processo de destruição. Parece-me que os métodos terapêuticos clássicos não bastam para ajudar este tipo de vítimas. Proporei, pois, instrumentos mais adaptados, que tenham em conta a especificidade da agressão peversa.» (pág.12).
Este tipo de agressão exerce-se no quotidiano privado do casamento e das famílias, ou nas empresas. O seu principal instrumento de tortura é a linguagem – a comunicação deformada – que pode ir do sarcasmo e desprezo, à simples mentira. Há um estudo de Gregory Bateson – e da escola de Palo Alto – sobre os modos de desencadear a esquizofrenia a partir deste mau uso das linguagens e da comunicação. O objectivo é sempre retirar os referentes à vítima, suscitar-lhe a dúvida sobre si própria, sobre a sua concepção do mundo, isolá-la emocional e socialmente – levá-la a uma qualquer forma de morte. A sofrer de agressão psíquica, falta de confiança em si, dificuldade em se explicar, a vítima não sabe dar nome nem à agressão nem ao agressor.
«Escolhi deliberadamente utilizar os termos agressor e agredido, pois trata-se de uma violência verificada, mesmo que oculta, que tende a atacar a identidade do outro e a retirar-lhe toda a individualidade. É um processo real de destruição moral, que pode levar à doença mental ou ao suicídio. Manterei igualmente a denominação de «perverso», porque ela remete claramente para a noção de abuso, como acontece com todos os perversos. Começa logo por um abuso de poder, prossegue por um abuso narcísico, no sentido em que o outro perde toda a sua auto-estima, e pode acabar por vezes em abuso sexual
O problema é que esta figura do perverso/a exerce os seus abusos a partir da teia da sedução, com resultados não metafóricos: quanto mais a vítima se debate, mais enredada fica no processo. E o processo em si ecoa e acorda medos atávicos – não será por acaso que surge um sub-capítulo com o título de «vampirização».
A originalidade primeira deste trabalho de Marie-France reside no facto de acreditar nas vítimas no sentido em que não as insere imediatamente no quadro do masoquismo: «A pessoa não é “globalmente” masoquista, mas o perverso apanhou-a pela sua falha que pode ser eventualmente masoquista. Quando um psicanalista diz a uma vítima que ela se compraz no seu sofrimento, ele escamoteia o problema relacional. Nós não somos um psiquismo isolado, nós somos um sistema relacional». (pág. 209). Embora toque no assunto da determinação dos papéis pela sociedade e educação, fá-lo apenas como enquadramento para cada caso – mas seria um interessante tema de reflexão expandir as possibilidades abertas por este livro em comparação com o trabalho do americano Claude SteinerScripts People Live – (em pdf, na Internet Archive) não citado na interessante bilbiografia final.
Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano termina com toda uma secção dedicada às possibilidades de tratamento, o tipo de ajuda profissional necessária para cada instância, o relatório das sequelas a curto e longo prazo – e a hipótese de cura, citando Ricoeur e a ecoar Simónides de Cós: «o trabalho de cura começa na região da memória e prossegue na do esquecimento.» (pág. 208) – é preferível a arte de esquecer do que a de lembrar.

Helena Barbas

[actualização de artigo publicado no Cartaz, Expresso, 11.06.1999]

Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano – 1 exemplar em stock no alfarrabista “Cão Grande
Manipulação dos Espíritos e o modo de lhes fazer frente – 1 exemplar em stock em “VINTAGE LX”

 

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