
Período áureo do gótico e da escolástica, o século XIII tem como seu grande expoente literário O Romance da Rosa. Poema escrito a quatro mãos, é composto por uma primeira parte num total de 14.000 versos (c.1235) da autoria do poeta de corte Guillaume de Lorris (c.1215-1238).
Desenvolve este uma alegoria do amor, seguindo os princípios dos códigos trovadorescos que vão culminar nos tribunais de Margarida de Navarra. É Maio, o poeta/narrador sonha que chega a um jardim maravilhoso encerrado entre quatro muros. Aí reina o Amor cercado pela sua corte – personificações de vícios e virtudes a ele associados. O herói vê uma rosa, e quer colhê-la apesar de todos os espinhos. Impedem-no ainda outras tantas entidades como o Perigo e a Vergonha, guardiães do castelo do Ciúme. Acaba aqui abruptamente a contribuição de Lorris, deixando a obra em aberto. Quarenta anos mais tarde, Jehan de Chopinel, nascido em Meung (c.1240-1305), meio goliardo, tradutor e alquimista, acrescenta-lhe cerca de 18.000 versos. Pega nas personagens mas, com pena cínica, redirige a alegoria por um caminho que se pretende mais didáctico, oferecendo uma perspectiva realista a raiar a anarquia – contra a igreja, a aristocracia, a família – acabando por transformar o texto também num muito herético manual de boas maneiras.
Curiosamente, reencontram-se num só livro duas plurais linhas de tradição que, de opostas, se tocam. Lorris inscreve-se na lista dos herdeiros de Apuleio, das Hipnerotomaquias (as lutas nos sonhos) e logo, oferece-se como precursor do Sonho de Polifilo de Francesco Colonna, ou até do nosso Crisfal. Meung recupera as vidas dos amantes célebres, os misóginos catálogos de mulheres, a Arte de Amar de Ovídio. Embora não deixe também de incluir um resumo da arte da alquimia no capítulo 8 – “O Assalto ao Castelo” (pág.262).
O Eros divinizado vê-se reconduzido ao mundo da natureza, à mera necessidade de propagação – ao sexo. De alegoria, o Romance da Rosa é transformado em controverso enigma. Também pelo jogo com as sonoridades, as homofonias da «linguagem dos pássaros»; ou pelo verso de oito sílabas, macarrónico, próprio da sátira. Seduz naturalmente Rabelais e Marot. Ofende Cristina de Pisan e Jean Gerson. Intriga estudiosos modernos como C. S. Lewis, no seu livro Alegory of Love; e Jean-Charles Payen, que o entende como uma denúncia da opressão e do parasitismo em La Rose et L’Utopie.
Embora sem o prefácio que tal obra exigiria – nem sequer a informação de que o original é em verso – a tradutora da edição portuguesa da Europa-América (agora esgotada) Lucília Maria de Deus Mateus Rodrigues, esmerou-se, permitindo-nos vislumbrar os ritmos, e fornecendo notas oportunas.
Encontra-se uma versão brasileira – Trad.: Sonia Regina Peixoto, Profa. Eliane Ventorim, Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) Revisão e notas: Eliane Ventorim e Ricardo da Costa; Revisão gramatical: Profa. Larissa Brommonschenkel Soares –
por aqui – e o original na Gallica.
Helena Barbas
[actualização de artigo publicado no Cartaz, Expresso, 9.02.2002]