
Nesta edição das tão polémicas “Cartas Portuguesas” (que até os franceses queriam), Soror Mariana Alcoforado (1640-1723) assume a autoria de cinco epístolas destinadas a um hipotético Cavaleiro de Chamilly. Nelas nos conta o processo de sedução a que se rendeu, e o consequente abandono pelo gaulês, obrigado a regressar à sua terra.

As cartas, que parecem acompanhar as etapas do percurso seguido pelo cavaleiro, vão narrando os diversos momentos da vivência da paixão partilhada que agora, sofrida e ingenuamente, se questiona, à distancia. Do balcão donde se avista Mértola, Mariana recorda as promessas do primeiro encontro: «Pareceu-me que me pretendias agradar, embora não me conhecesses; convenci-me de que me havias distinguido entre todas aquelas que estavam comigo; quando paravas imaginava que o fazias intencionalmente para que melhor te visse, e admirasse o garbo e a destreza com que dominavas o cavalo; dava comigo assustada, quando o levavas por sítios perigosos; enfim, interessava-me secretamente por todas as tuas acções, sentia já á que me não eras de modo nenhum indiferente, e reclamava para mim tudo quanto fazias. Conheces de sobra o que se seguiu a tal começo» (p.38). O puro exercício da imaginação, tão caro ao Eros Neo-platónico, pode corroborar as dúvidas sobre o destinatário levantadas por Teresa Sousa de Almeida «se este será o Amor, ou o cavaleiro». Mas porque a freira é franciscana, as alternativas fundem-se na hipótese de ser o Amor projectado na figura de Chamilly. E as «cartas da abandonada» como lhe vai chamar Rilke, seriam assim, de facto, destinadas a um fantasma – bem captado nas ilustrações de Ilda David – e que nesta tradução Eugénio de Andrade resolveu tratar por “tu”, talvez num esforço intimista, recorrendo ao “vós” distanciador e cerimonioso apenas na última carta.
Houve muitas e variadas edições depois de 1993. Esta, agora em livro e e-book – tem a preciosidade de ser ilustrada por Ilda David – pintora e escultora dos poetas, cuja obra se encontra parcialmente recolhida pela Assírio & Alvim – agora artista portuguesa convidada pelo Vaticano (junto com Carminho) para a 61ª. Bienal de Veneza – 2026.
Verdade ou mentira literária, com ou sem fraudes, não perca este livro: embora conste que todas as cartas de amor sejam ridículas, estas nunca.
Helena Barbas
(actualização de artigo publicado em 14.05.1993, Vida, Independente nº. 262)