
Andy Warhol pode ser referido como o nome que consagrou mundialmente a “Pop” enquanto uma forma de arte digna, se não de admiração, pelo menos de respeito. Reconhecendo o constante bombardeamento de imagens díspares e informações contraditórias que explodem, profusa e diariamente perante o olhar, a “Pop” explora os modernos conceitos de amor, tempos livres, e consumismo, recorrendo a todas as suas formas de exteriorização como fotos de estrelas de cinema e desporto, objectos anacrónicos (latas de sopa, garrafas de Coca-cola), personagens de banda desenhada, vindo a definir-se por uma iconografia próxima da das artes publicitárias.
Alinhando com o “kitsch“, e defendendo o “mau gosto” do público em geral, menospreza os conceitos de invenção e originalidade que substitui, descaradamente, pela cópia de modelos banais: os objectos produzidos (e vendidos) em massa. Por aqui se justifica o termo “Factory” [Fábrica] com que Warhol baptizou o seu “atelier”, e a sua afirmação de que a arte, efémera, pode ser feita por qualquer pessoa, ou resultar de um fabrico em série.
O homem que tornou os “jeans” eternos, cruzou-se com os “Velvet Underground” em 1965, vindo a ser considerado o seu pai espiritual. Porém, esta associação resulta principalmente de afinidades pessoais, da relação entre Lou Reed e Warhol, e faz-se sentir mais através do cinema, do que através de temas e motivos artísticos. O primeiro disco do grupo, “The Velvet Underground & Nico” é editado em 1966 com produção e capa (a famosa Banana) de Warhol. Músicas como “Femme Fatale” e a “Venus in Furs” salientam uma vertente sado-masoquista; a “Heroin” celebra a relação errática do “junkie” com a droga; em “I’ll be your mirror” Nico salienta o narcisismo do amor no mal. Assim, os “Velvet” surgem como uma espécie de reflexo especular que, por oposição, exibe o lado mais negro da existência, o decadentismo urbano, os abismos dos estupefaciente e dos relacionamentos sado-masoquistas que Warhol, enquanto pintor “Pop”, elide e rasura nos seus quadros. Os “Velvet” separaram-se, seguindo cada um o seu destino a “solo”.
Andy Warhol morreu. Mas o homem que recusou a sua humanidade, que atacou o mito do artista como génio único, e espontâneo, e que aspirava a ser uma máquina tornou-se imortal. Não apenas pela sua obra, nem através da convencional estátua, mas, muito apropriadamente, por intermédio de um “robot” – o “A2W2” de 1982 – uma réplica sintética começada ainda durante a sua vida (os diversos membros foram moldados sobre os do autor) e trabalhada durante dez anos para alcançar a perfeição de um “clone”.
Andy Warhol foi ainda pioneiro na arte digital “cibernética” ao utilizar, em 1985, um computador “Commodore Amiga 1000” para criar, manipular e colorir imagens, incluindo o famoso retrato ao vivo de Debbie Harry. Estas obras digitais pioneiras – com algumas ainda inéditas, em disquetes obsoletas – têm vindo a ser recuperadas.
Neste livro – com tradução e notas de João Lisboa – encontram-se duas entrevistas, a John Cale e Lou Reed, bem como um dicionário onde, de A a Z se incluem todos os verbetes sobre as “Superstars”. Os fãs furiosos poderão ainda deliciar-se com uma biografia do mestre: “Holy Terror: Andy Warhol Close up” por Bob Colacello (Harpers & Collins, N.York, 1990).
Helena Barbas
[actualização de artigo publicado no Vida, Independente, 1992]