Uma vez que já está acessível na página do PEN Clube Português e no Facebook – deixo aqui o texto sobre o livro do Ernesto Rodrigues:

O júri do Prémio de Narrativa do PEN Clube Português regozija-se com a entrega desta distinção à obra Uma Bondade Perfeita do escritor Ernesto Rodrigues, felicitando o autor pelo seu livro notável, bem como a sua editora Gradiva.

Agradecemos ao representante da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e a todos os presentes, que muito nos honram com a sua comparência.

Havia um elemento em comum nas obras seleccionadas na “shortlist”: indo além da narrativa, destacaram-se por um uso muito particular da ferramenta do escritor que é a linguagem, tendo-a obrigado a ultrapassar os seus limites naturais. No caso de Ana Teresa Pereira, Karen visita os meandros da identidade e da memória. Mas seja o livro Não se pode morar nos olhos de um Gato de Ana Margarida de Carvalho, seja Pequena Europa de Mafalda Ivo Cruz, e principalmente Os homens que os pássaros comem de Francisco Sousa Vieira, inserem-se de modo peculiar nas preocupações que pautam as estratégias do PEN Clube desde 1921: uma atenção às frequentemente frágeis conjunturas de possibilidade de uma luta por condições de vida e criação de viável dignidade. Acontece que a literatura vive dessa irresolvida e por aí permanente tensão, produzindo espaços de pensamento para além da liberdade estética.

O romance finalista – Uma Bondade Perfeita de Ernesto Rodrigues – revelou-se, ainda, exímio no jogo com a própria construção narrativa, com os seus componentes usuais, des-estruturando e re-estruturando a ficção, tentando esgotar os próprios registos de escrita, fazendo chegar aos seus limites o pacto narrativo

Trata-se de um “roman-à-clef”, “engagé”, caleidoscópico, um “puzzle”, um enigma que só pode ir sendo desvendado pelo próprio leitor.

No seu cerne encontram-se dois “fait-divers”, hipotéticas ocorrências jornalísticas: por um lado um caso de violência doméstica, em que o marido pode ter assassinado a mulher; por outro, a explosão de uma bomba que poderá ter deflagrado num campo de refugiados.

As personagens começam por ser “tipo”, sem nome – o botequineiro, o frade, o médico – definidas pela função social: «Ninguém tinha nome, forma suprema de vazio» (p.75). Quando o adquirem, mesmo sendo o seu sentido e simbologia explicitados, pouco mais se adianta: o médico é Hipócrates; «Sérvulo e Sicário são a mesma pessoa em dois ofícios/ – Eu sabia deste; não que fosse SS» (p.94). E todos poderão não ser mais que proliferações do “eu” que se observa na vitrina de uma loja de espelhos, cujos corredores visita: «hipótese: cada forma era puro ecrã, onde projectavam nossos fantasmas ou os que lhes imputássemos» (p.14).

Também o espaço não é circunscrito. Multiplica-se por geografias vagas, com viagens a locais mal definidos: uma urbe com estação de comboios e presídio; um campo de refugiados e cavernas. Destaca-se uma deslocação a Londres, onde é respeitada a topografia da cidade em torno de Russell Square. Mas os lugares vão subordinar-se à(s) história(s) – informa-se que existe pena de morte (p.27), e há línguas estranhas que se articulam (p. 44). Já os tempos são declarados quase episódio a episódio, entre Fevereiro e Março de 2010, para contar a(s) história(s) ou hipotéticas biografia(s) de vinte anos atrás.

O tema vai-se construindo – filosoficamente – em oposição ao título: Uma Bondade Perfeita só pode ser entendida em função do seu oposto, a maldade. Algures uma personagem – que por vezes é o herói – revela: «Quis fazer um teste: ser bom» (p.80). Este, na qualidade do possível carrasco (de nome Clemente) inaugura o livro com um futuro “leit-motiv”: «Quero contar como fui convidado a matar a minha mãe» (p.9). Vão assim surgindo as monstruosidades possíveis ao ser humano – assassínios, incestos, nas variantes tornadas comuns e banais em noticiários e relatos televisivos.

A(s) história(s) organizam-se também como um “zapping” pelas várias vidas e vários temas. Os mesmos acontecimentos vão ser narrados por cada personagem de acordo com o respectivo ponto-de-vista, que lhes acrescenta detalhes e pormenores insólitos, alterando as perspectivas, fechando a(s) narrativa(s).

E também os registos de escrita vão acompanhando estas multiplicidades: relato na primeira pessoa, ou na terceira; diário ou biografia; entrevista e guião. Há premeditadas interferências de memórias e “qualia” proustianos (p.44), ou do monólogo dramático joyceano (p.146).

O final pode ser feliz – bondoso – mas só na mente do leitor. Como num caleidoscópio que, depois de agitado, oferece sempre composições diferentes.

Francisco Belard, Helena Barbas, Teresa Cadete