poesia, política, teatro, tradução

Shakespeare sobre os estrangeiros

Numa peça sobre Thomas More encontra-se parte manuscrita atribuída a Shakespeare – reescrita e censurada. Depois da morte de Isabel I em 1603, Shakespeare acrescenta-lhe 147 versos no meio da acção em que More tenta aplacar um motim em Londres contra os imigrantes – os ‘estrangeiros’. O vídeo reune essas falas com outras frases do bardo – abaixo fica uma tradução livre de parte do texto de More:

Ireis humilhar os estrangeiros,
Matá-los, cortar-lhes as gargantas, possuir-lhes as casas,
E dominar a majestade da lei com uma trela
Para a fazer deslizar como um cão. Infeliz, infeliz, diz agora o rei,
Sendo ele clemente se o ofensor carpir,
Devesse ser tanto menor que a grande invasão de propriedade
O merecerem a vossa expulsão: para onde definhariam?
Que país, pela natureza do vosso erro,
Deveria dar-vos porto? Que fosseis para França ou a Flandres,
Para qualquer província alemã, Espanha ou Portugal,
Ná, para qualquer lugar não sujeito à Inglaterra,
Porquê? É imperioso que sejais estrangeiros, agradar-vos-ia
Descobrir uma nação com temperamento tão bárbaro
Que rebentando em violência hedionda
Não pudesse sustentar dar-vos uma habitação na terra.
Aguçam detestáveis facas contra as vossas gargantas,
Rejeitam-vos como aos cães, e fazem como se Deus
Não fosse vosso dono nem vos tivesse feito, ou que os elementos
Não fossem todos apropriados para vossa comodidade
Mas destinados apenas à deles? O que pensaríeis
Se fosseis assim usados? Esta é a defesa dos estrangeiros
E esta a vossa montanhosa desumanidade.

Trad. Helena Barbas 12 Julho 2018

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