(na gaveta), poesia, prémios

Ramos Rosa em 1988

António Ramos Rosa (1988) Expresso

«Data de 1958 o primeiro livro de Ramos Rosa, O Grito Claro,­ cumprindo agora o autor trinta anos de percurso poético. É um longo caminho de exploração da linguagem, de demanda, não apenas artística, mas também de auto-conhecimento, que vêm a ser­ compensado com o prémio Pessoa.

Poeta modernista, tenta libertar as energias expressivas­ reprimidas, tornando-se o experimentador que busca uma imagem, a ­imagem possível num mundo em transformação, que redima o universo­ caótico, abdicando, pois da posição de celebrante de uma ordem ­humana e social.

A poesia deixa de ser um exercício impresso em que se exibe a excelência individual e torna-se um sinal falado de estímulo ­sensorial e uso do corpo: a arte – se este termo pode ser hoje­ usado – é um gesto revolucionário, o discurso, necessariamente ­descontínuo, porque mimese de um processo caótico e metamórfico,­ oferece-se como uma via alternativa. Neste autor, a imaginação­ poética aberta à experimentação linguística torna-se numa ­imaginação política, susceptível à ideia de uma sociedade ideal­ e utópica face à mitologia capitalista, defendendo a cooperação  ­em lugar da competição. A poesia como “liberdade livre” é a metáfora da auto-determinação política, e o recurso à linguagem­ do quotidiano, à sua simplificação coloquial, implica a rejeição­ de todas as formas de elitismo.

Mas o eco de uma realidade social opressiva desencadeia a ­busca de uma outra realidade, descoberta do mundo e de si próprio ­através da linguagem, que se torna demanda de essências, do­ verdadeiramente desconhecido, do indizível. Ramos Rosa abandona­ assim as suas ligações com o realismo e o surrealismo, procurando ­outro dos caminhos de ligação com o real, descobrindo o seu.

Questiona o real pelo poema, micro-cosmos que espelha não ­apenas o cosmos como o próprio homem. No poema então se reflecte o eu, mas o conhecimento que proporciona é precário, sujeito ao­ espaço-tempo, à relatividade e efemeridade da vida, conhecimento­ que, logo escrito, se petrifica, perdendo o seu sopro vital. Isto­ leva a um recomeçar constante, um novo acto criador que de novo­ desencadeie vida, e que mantenha aceso o sopro vital. O poema­ liga-se assim ao real através da própria respiração, é o sopro ­que sustenta o corpo, e o corpo é o primeiro nível de ­materialidade que se alarga aos outros, à casa, à natureza circundante – árvore/mar – ao mundo.

O poeta é o demiurgo que procura repetir o gesto divino inicial­ que separa a luz das trevas, e faz ouvir o verbo no silêncio da ­página em branco. Esta demanda dos princípios é uma busca da ­pureza inicial, de um mundo anterior à queda, adâmico, ou de um­ mundo mágico em que ainda são possíveis as homologias entre casa,­ corpo, página. Há um prolongamento e uma partilha entre o ‘eu’ e o ­mundo que tornam difícil decidir onde um começa e outro acaba,  ­uma ligação entre as palavras e as coisas que revelam o tradutor ­de Michel Foucault.

Desencadeiam-se associações e homologias que­ transformam o poema num “objectivo correlativo” das experiências ­vividas e do próprio acto de escrita. Usam-se as palavras desligando-as das suas relações sintácticas, tornando-as­fragmentos em que se reduz a presença da acção humana – o verbo – ­justapondo-se substantivos e adjectivos, seduzindo o leitor para ­uma partilha do trabalho de exploração das denominações puras,­ dos tempos primordiais da fala. Abstraídas do seu espaço ­convencional, as palavras são redescobertas e preservadas em ­novas combinações que exibem o seu potencial oculto.

As homologias estendem-se ao jogo tipográfico, em que a ­disposiçäo gráfica, procurando romper com a linearidade do signo, ­acentua a capacidade visual do poema, a respiração da ­palavra-matéria que se gera na página. Mas esta pode ser­ entendida ainda em termos musicais, na progressão das frases que­ se desenvolvem, repetindo-se, variando e alargando-se numa­ estratégia de “fuga”. Estendem-se ainda ao desejo de fusão de ­todas as artes, nos comentários poéticos sobre a pintura, em que ­também se busca reproduzir a sua estrutura essencial, numa ­metamorfose em que ecoa Jorge de Sena.

António Ramos Rosa tem sido associado às tradições poéticas ­de inspiração francesa, mas esta sua preocupação da palavra como “pedra”/”coisa” que materializa o poema, traz ecos­ anglo-saxónicos, de “no in ideas but in things” de William Carlos­ Williams. A imaginação criativa no processo de invenção, no ­fabrico do poema, quebra as ordens petrificadas do real e cria ­novas ordens mais de acordo com a realidade das partes que a­ compõem que, como tal se vai sucessivamente transformando e evoluindo.»

Helena Barbas

Texto escrito sobre António Ramos Rosa, para o diário matutino ‘O Europeu’ em Dezembro de 1988, na ocasião do seu Prémio Pessoa. Foto de época roubada agora ao ‘Expresso’ on-line.

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