Os 3 Pês

33ppp

No tempo da outra senhora (que por acaso era um senhor) havia três actividades altamente consideradas pelos mais diversos motivos, um deles o de serem os pilares da sociedade: os Padres, os Professores e os Polícias. Sobre os Padres, foram transformados em assistentes sociais, e devem estar sem mãos a medir na distribuição de sopa e mantas aos pobres. Os restantes, hoje em dia, encaminham-se para a zona da escumalha.

Os Professores foram transformados no bode expiatório de todos os desaires financeiros do estado, de todos os défices dos últimos governos, como se fossem os únicos funcionários públicos do universo. Começando pelo excesso de professores há o exemplo na área das línguas, onde isso se deve a más decisões governamentais quando, em finais dos anos setenta, a reforma dos cursos superiores de literaturas se virou, por decreto, para o ensino de línguas estrangeiras no secundário. Parece que, na altura, o estado tinha falta de professores. E por tal eram todos obrigados – mesmo os que não queriam seguir a via do ensino – a tirar um curso que só lhes dava essa saída profissional. Quem não fizesse estágio, ficava com uma licenciatura de segunda classe. A cena agravou-se com a abertura das ESES, e mais uma decisão governamental brilhante, que não deixou as universidades modificar os curricula de modo a encontrar alternativas ao sobrepovoamento da área. Também ninguém imaginou então o efeito do abaixamento demográfico na conjuntura. Agora, há professores a mais. Agora, os professores são uns facínoras, uns calões que trabalham menos horas que os outros, e pretendem ter mais regalias em termos de assistência social e reformas. Embandeira-se em arco porque as escolas ficam abertas mais tempo, porque os professores passaram a ter que ser também baby-sitters dos filhos dos trabalhadores que, esses sim, chegam a casa cansados depois das 6 da tarde.

Fala-se em ensino de excelência. Um paradoxo. Nenhum professor consegue fechar a porta do escritório às seis: tem aulas e reuniões para preparar em casa, testes para ver e, teoricamente, leituras a fazer para se manter actualizado. Alguns até têm que dar assistência à sua própria família. Havia o escape das férias, que podia permitir compensar o desgaste que se ia acumulando em cada semestre, mas também isso se foi. Nenhum ser humano consegue estar a tomar conta de crianças seis horas por dia, e sair fresco para desempenhar qualquer tipo de trabalho intelectual. Mas agora, até a capacidade intelectual vai ser posta em causa com uma prova de avaliação – retroactivamente ilegal – que pode chumbar quem não souber escrever segundo um Acordo Ortográfico que nem sequer ainda é lei. É difícil conseguir um ensino de excelência com professores estafados, desempregados, com contratos a prazo (os que têm sorte), e a terem vergonha de dizer publicamente qual a sua profissão. Tudo isto contamina também o ensino superior – amanhã, às 15:00 h, docentes e investigadores das universidades manifestam-se diante do MEC.

Sobre os Polícias, basta ir vendo  os noticiários – fazem manifestações e greves como o comum dos mortais, andam maldispostos pela perda de regalias, sentem-se impotentes para cumprir as funções para que foram ajuramentados. Já não têm carros, nem coletes à prova de bala. A manif de ontem levanta um grave problema filosófico – os polícias impõem o cumprimento da lei num estado de direito. Mas onde está o direito deste estado em invocar o cumprimento das leis à polícia quando ele próprio há já tempos que deixou de se preocupar em cumpri-las – no mínimo no que respeita a legislar retroactivamente, para não se falar dos orçamentos e da guerra ao Tribunal Constitucional. Invoca-se o respeito pelas regras, pela liberdade e pela democracia, mas parece que há uns que são menos iguais do que outros. Os funcionários públicos que pertencem à polícia e que ontem subiram as escadas da Assembleia da República estão a ser condenados por terem passado esta segunda barreira físico-psicológico-simbólica. Visto por outro lado, só mostraram que não entraram no edifício porque não quiseram.

partilhar