Depois do anúncio pomposo a 13 de Maio que Portugal tinha sido “o primeiro a assinar” e a tornar obrigatório um Acordo (que, segundo a palavra, precisa de mais gente)  o AO90 – independentemente das ilegalidades (também) da data – resolvi fazer um apanhado do «estado da arte» para defender a tese: «estamos a ficar orgulhosamente sós no uso de uma grafia que ninguém quer e não percebe». Aqui vai.

Fui consultar os jornais acessíveis referentes aos países assinantes – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste – aleatoriamente, entre 2009 e hoje. A metodologia foi entrar nas respectivas páginas e, quando possível, fazer pesquisa sobre os termos: «Acordo ortográfico», «actualidade»/«atualidade», «projecto»/«projeto» e/ou afins. A ordem foi a crescente relativamente ao número de habitantes dos países do mapa da chamada Lusofonia.

paises_lusofonos
TIMOR LESTE e S. TOMÉ E PRÍNCIPE – O Jornal de Timor Leste tem uma rubrica chamada Lusofonia. Atualidade não dá resultados, mas actualidade sim, projecto e projeto existem com resultados diferentes. O Jornal de S. Tomé preocupa-se com Timor, e traz um artigo intitulado «Timor-Leste: A Língua Portuguesa em dúvida». Parece que em 2010 «várias vozes da cidade timorense» criticavam a distância geográfica que as separa dos parceiros da CPLP; o problema é que grande parte da população entende «as línguas dos dois principais países vizinhos (bahasa indonésio e inglês)». É proposto o uso do Tetum, defendido por Kirsty Gusmão: «Embaixadora da Boa Vontade para a Educação, também nomeada Presidente da Comissão Nacional de Educação (CNE) – e esposa do Primeiro Ministro Xanana Gusmão». Atualidade não dá resultados, mas aparece actualidade em notícia sobre a criação de «O primeiro Instituto da Língua Portuguesa em Timor-Leste» (2014); projecto e projeto oferecem os mesmos resultados mas há uma protecção. O Jornal Tropical de S. Tomé traz em títulos Direcção, projectos, interacção. Já o Jornal A Vitrina é mais curioso. Há por rubrica Actualidade. O artigo de opinião de Alberto Castro (23-10-2014)  intitulado «Como políticos sem escrúpulos em Portugal se prestam a trabalhos de spin doctors para governantes africanos duvidosos» tem por herói o nosso deputado José Ribeiro e Castro, o mesmo que anda agora a dar-nos a cara pelo AO90. No Jornal Transparência (14-05-2015) consta: «No acto da abertura da reunião que teve lugar esta quarta-feira com actualização do presente documento…»

CABO VERDE – A Semana usa actualidade. Já o Expresso das Ilhas oscila, há atualidade, adaptação e projecto. A Nação é um clássico, e perguntado sobre «acordo ortográfico» devolve: «NADA ENCONTRADO! Desculpe, mas não encontramos nada semelhante ao que está a procurar. Por favor tente de novo inserindo uma outra palavra.»

GUINÉ-BISSAU – Na Gazeta de Notícias sobre «acordo ortográfico» dá «Search “acordo ortográfico” – Aucun article trouvé – 0 Articles», mas do editorial saem umas actividades. O Democrata usa actualidade e sobre o acordo devolve um artigo de José Ribeiro e Castro – a misturar Camões com o Menino Jesus e o nascimento da língua – escrito à moda antiga, muito de facto. No Bissau Digital vem a notícia de 2009 e subsequentes promessas de ratificação do AO90 até à data. Em 2014 usa atualidade, mas escreve acto de loucura, director – inspecção em 2015. Na Assembleia Nacional Popular os links para os documentos referem Mesa Directora e Actas; o sítio da Presidência reencaminha para «orthopaedic shoes for women».

MOÇAMBIQUE – Será o único a ter feito os TPC e em Junho de 2014, diz o clássico O País, pela mão do escritor Calane da Silva (actual presidente do CC do IILP-CPLP) apresentou o seu Vocabulário Ortográfico Nacional, o qual integra 40 mil palavras – contribuindo para a «realização do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua portuguesa, exigido pelo Acordo Ortográfico, assinado pelos Estados membros da CPLP» de que os outros se andam olvidando. Apesar da notícia do Expresso (8-6-2012) louvando «a adoção do Acordo»  em  10-05-2015 diz Lourenço do Rosário à ANGOP que «o Acordo Ortográfico ainda não foi discutido pelo parlamento moçambicano, devido às prioridades da actualidade política moçambicana, marcada, nos últimos dois anos, pela crise político-militar entre a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e o Governo moçambicano e pelas quartas eleições gerais de 15 Outubro» (futuro). Sobre as práticas, A Verdade usa setores, exceto, adaptação, actualidade e projeto/projecto. O Zambézia on-line emprega atualizado, facto, megaprojectos.

ANGOLA – O Jornal de Angola diz (11-04-2015) que o Acordo Ortográfico está em discussão. Exige que seja rectificado: «Angola solicitou este ano informação de países como o Brasil e Portugal sobre as suas experiências, para ser analisada internamente e saber que decisões tomar. Outra preocupação é conhecer os prejuízos para o país com a aplicação do Acordo de 1990 nos moldes em que se encontra. “Teríamos dificuldades porque nem todas as bases apresentam respostas científicas e os professores não saberiam explicar aos seus alunos”, disse a directora.» a muito sábia Ana Paula Henriques que acrescenta: «Os demais Estados consideram o parecer de Angola válido. “Não há razões para criar constrangimentos ao funcionamento das instituições nacionais com um instrumento que deve ser corrigido” […] Os projectos têm prazo de cinco anos e tudo quanto for produzido por Angola carece de aprovação na Assembleia Nacional. À ANGOP (9-04-2015) defende «a elaboração de um vocabulário ortográfico nacional e a rectificação de determinadas bases técnico cientificas para ratificar o Acordo Ortográfico a nível da Comunidade de Países de Língua Portuguesa». A Folha 8 (3-10 2014) diz: Acordo ortográfico? – Não, obrigado! ideia que parece estar a ser seguida por: Jornal Agora que afirma numa crítica literária de 2015: «Nós falamos a língua portuguesa mas com algumas características muito próprias»; Novo Jornal e até a Universidade Católica de Angola.

BRASIL – Da parte do Brasil, e pelas Notícias ao Minuto (10-05-2015) reza que «A senadora Ana Amélia (Partido Progressista), afirmou que o grupo de trabalho deve reunir-se ainda este mês para apresentar conclusões, esclarecer dúvidas e apresentar sugestões de alterações ao acordo, mas sem questionar a data para o início da obrigatoriedade da entrada efetiva em vigor.» – foi ela quem defendeu e conseguiu o adiamento da obrigatoriedade de 2013 para Janeiro de 2016. E terminam informando que «O Acordo Ortográfico foi ratificado pela maioria dos países lusófonos, à exceção de Angola e Moçambique». Pois.

Resumindo e concluindo que a prosa já vai longa – e obrigada dear reader pela paciência – mesmo sem bola de cristal adivinha-se que os países da CPLP estão cada vez menos interessados em ratificar este AO90 – para o qual andamos ridiculamente a servir de cobaias; pelo caminho querem obrigar-nos por “lei” a destruír o património (i)material da nossa língua digna de muito mais respeito.

partilhar

2 comments on “O AO90 ou se o ridículo matasse

  1. Helena Barbas diz-” andamos ridiculamente a servir de cobaias”. Nem mais nem menos. As asneiras de Sócrates ao alterar a Lei e a teimosia de Passos em aceitá-la vai levar-nos a uma posição destas. Só nos falta andarmos à chapada e depois publicar no YouTube. Pode ser que depois alguém de fora nos venha acudir.

  2. As minhas saudações.
    Achei muito interessante este seu trabalho ( que vi partilhado no Facebook pela Ana Cristina P. Leonardo). É uma boa pesquisa que mostra, de facto, a situação actual do AO90 nos países lusófonos.
    O critério que usa para chamar a atenção do “desacordo” é claro, do meu ponto de vista, chamando, em particular, a atenção para quem usa palavras pré-acordo em simultâneo com palavras “acordizadas” e mesmo para textos ou publicações ( “A Verdade”, por ex.) em que é utilizada a mesma palavra com duas grafias diferentes: projeto/projecto, por exemplo.
    No entanto, destaca duas palavras que me surpreenderam e suponho tratar-se de um lapso, pois acho-as irrelevantes no contexto deste seu trabalho: a propósito de Cabo Verde destaca a palavra “adaptação”. Ora “adaptação” não sofre, no AO90 qualquer alteração nem é sequer susceptível de dupla grafia. É adaptação e continuará a ser! Não tem nem pode ter outra grafia, em português.
    Refere-se também ao “Zambézia online” (Moçambique) e à palavra “facto”. Facto, no sentido de acontecimento, situação, assunto – que deduzo ser o caso, continua a escrever-se “facto” e a pronunciar-se também com o C, mesmo com o novo acordo. A não ser em fato (peça de vestuário). Já no Brasil mantém-se como sempre tem sido: fato mesmo para facto. Mas não no português europeu.
    Agradeço a atenção dispensada. Cumprimentos de José Alcino

Comments are closed.