acordo ortográfico, déjà vu, ensino

Nue speling e perfeições fonéticas

A idea de reformas ortográficas nem é exclusivamente nossa, nem nova, nem original . No Reino Unido, a Spelling Society está a preparar um congresso de especialistas (2016) para se tornar a discutir a reforma da grafia inglesa.

O problema – em estudo desde o fim dos impérios e independência das colónias – tem por objectivo primeiro facilitar a aprendizagem da escrita e, segundo, confessas motivações económicas fundadas em estudos estatísticos (e falácias do costume). Parece que a quantidade de grafemas que as crianças têm que aprender – 185 – podem ser reduzidos para 50 pelas regras de uma das propostas –  Nue Speling, na versão americana Nu English. Uma outra alternativa parte da Interspel (International English Spelling), cujos princípios foram introduzidos pela australiana  Valerie Yule.

As propostas que almejam conseguir alguma consistência fonémica vêm já do fim das Guerras, e oscilam entre suaves tentativas de suprimir repetições, a normalizações mais absurdas – “Corte Spelling”, e Zinglish de Zé do Rock. Porém nenhuma tão ousada quanto a da criação de um novo alfabeto – o Shavian – patrocinado por George Bernard Shaw, que exigiu fosse usado para a edição da sua peça Androcles e o Leão (que acaba bilingue).

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Androcles and the Lion (1912 ) – G. Bernard Shaw (edição em Shavian 1962)

Sobre os apoiantes da mudança há um panfleto. De entre os opositores encontra-se também George Orwell que no seu artigo As I Please (1947) expõe as suas reservas:

«Ainda não li mais do que um parágrafo de jornal sobre Nu Speling, sobre a qual já alguém está a introduzir uma lei no Parlamento, mas se for como a maioria dos outros esquemas para racionalizar a nossa ortografia, eu sou antecipadamente contra, como imagino que o será a maioria das pessoas.

Provavelmente a razão mais forte para resistir à ortografia racionalizada é a preguiça. Já todos aprendemos a ler e escrever, e não queremos ter que fazer tudo de novo. Mas há outras objecções mais respeitáveis. Para começar, a não ser que o sistema seja rigidamente aplicado, o caos resultante, com alguns jornais e editoras a aceitá-lo, outros a recusá-lo, e outros a adoptá-lo aos remendos, seria medonho. Depois ainda, quem quer que tenha aprendido apenas o novo sistema iria achar muito difícil ler livros impressos no antigo, de modo que o trabalho imenso de re-escrever toda a literatura do passado teria de ser realizado. E ainda, só se pode racionalizar completamente a grafia se existir um valor fixo para cada letra. Mas isso significa a normalização da pronúncia, o que não poderia ser feito neste país sem uma enorme discórdia. O que é que se faz, por exemplo, com as palavras «butter» ou «glass», que são pronunciadas de forma diferente em Londres e Newcastle? Outras palavras, como «were» são pronunciadas de duas maneiras  diferentes de acordo com a tendência do indivíduo, ou com o contexto. No entanto, não quero emitir juízos precipitados sobre os inventores do Nu Speling.»

Também contra as propostas de Shaw, e dando um exemplo prático do novo modelo gráfico há o texto anterior (1946) de Dolton Edwards (W. K. Lessing), falsamente atribuído a Mark Twain (e posteriormente publicado num volume de Ficção Científica). Traz por título Meihem in ce Klasrum, propõe a criação da National Easy Language Week (Semana da Linguagem Nacional Fácil) e faz uma calendarização anual do desaparecimento das incongruências: o “c” substituído pelo “s” em 1947, etc. Termina: «Kontinuing cis proses, year after year, we would eventuali hav a reali sensibl writen langug. By 1975, wi ventyur tu sei, cer wud bi no mor uv ces teribli trublsum difikultis, wic no tu leters usd to indikeit ce seim nois, and laikwais no tu noises riten wic ce seim leter. Even Mr. Yaw, wi beliv, wud be hapi in ce noleg cat his drims fainili keim tru». [«Continuando este processo, ano após ano, acabariamos por ter uma linguagem escrita realmente sensata. Atrevemo-nos a dizer que, em 1975, não haveria mais problemas com esta dificuldade terrível, que é haver duas letras usadas para indicar o mesmo ruído, e da mesma forma não haveria dois ruídos diferentes escritos com a mesma letra. Até o Sr. Shaw, acreditamos, ficaria feliz por saber que seus sonhos finalmente se tornaram realidade.»]

Em Agosto de 2009 há uma paródia paralela para o português – «O acordo ortográfico e o futuro da língua portuguesa» acessível no Blog «A Biblioteca de Jacinto», já muito multiplicado pela net, mas sempre actual:

«Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.
Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas.
É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se? O que estão lá a fazer? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.
Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra.
Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s”?
Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuir um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç”.
Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som.
Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”.
Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z”.
Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”.
Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k”.
Não pensem qe me esqesi do som “ch”.
O som “ch” pasa a ser reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa.
Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”.
Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural.
No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente.
Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”. Para qê qomplicar?!?
Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto? Maix uma letra muda qe eliminamox.
É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?
Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam!
Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox.
A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia.
É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer.
Max, em outrox qazos, á alternativax.
Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax vezex lê-se “u” e outrax, ainda, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! Para qe é qe temux o “u”? Para u uzar, não? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil! Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu.
Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i”. I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”.
Sempre. Simplex i sem qompliqasõex.
Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” – pur “ainx” i “õix” pur “oinx”.
Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.
Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu.

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?»

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