(na gaveta), romance

Sobre o Dinossauro de José Cardoso Pires

José Cardoso Pires - Dinossauro Excelentíssimo«No Reino dos Mexilhões

Há muitos romances sobre o que era Portugal antes do 25 de Abril. Alguns foram aparecendo no depois. Mas quem conta o estado do Estado na eminência da Revolução, quem dá o retrato do momento imediatamente anterior e esboça uma situação ridícula de podre é Cardoso Pires, magistralmente, em Dinossauro Excelentíssimo. Publicado em Maio de 1972, e com mais duas edições nesse mesmo ano, o livro foi um secreto «best-seller», chegando às mãos mesmo daqueles que nem tinham grandes conhecimentos nem grandes informações ou convicções políticas. Como as boas fábulas, mostrou-se legível a todos os níveis de idade e formação. Usava o registo da ironia e do sarcasmo que – pensando nas revistas do Parque Mayer ao tempo, ou nas crónicas da «Guidinha» de Luís de Sttau Monteiro – se provou ser o tom melhor ouvido e mais adequado ao leitor comum.

Talvez também o tom que melhor passou no intervalo dos riscos grossos e azuis dos lápis dos censores – decerto gente sem sentido de humor, a levar a piada à letra vendo-a como disparate: «O Reino naquela época tremia de frio e de dificuldades. Tinha-se deslocado para a beira-mar, não se sabe bem porquê mas supõe-se: fome. A fome vinha do interior e varria tudo para o oceano. Nesta leva desgarrada, escapavam os camponeses, que tinham a barriga curtida, eram cardos, e que se cravavam na terra como uns danados, à dentada. (…) Os restantes (…) fugiam de roldão pelo país fora, atravessando aldeias e planícies, vinhas e repartições, hoje fazendo família neste ponto, amanhã mais naquele, até se verem diante do mar, acossados. Uma vez ali, ou se entregavam de corpo aos caranguejos ou faziam como o mexilhão: pé na rocha e força contra a maré. Daí o nome de Reino do Mexilhão que lhe pôs a geografia em homenagem (homenagem?) a esse marisco mais que todos humilde, só tripa e casca.» (págs. 41-42). São estes os súbditos de um governo de «dê-erres» que vai eleger um dos seus para Imperador, os «guerreiros do interior, filhos de montanheses, que avançavam friamente treinados pelos mestres da cidade dos doutores. Tinham cercado primeiro a capital, mascarados de juízes mangas de alpaca, meninos de coro e curadores dos pobres» (pág. 44). Perdão. Dos pobres não, dos «remediados»: «Na Comarca dos Doutores onde se via a pobreza devia ler-se modéstia – outra regra que era necessário registar, diziam os dê-erres.» (pág.46).

Um dos pontos vitais do governo deste Reino é a sistemática renomeação do real levada a cabo pelo Imperador: quando não se gosta dos termos que definem as coisas, não se mudam as coisas, mudam-se as palavras: os «mendigos» passam a «inadaptados»; os «impostos» a «donativos»; a «guerrilha» não é uma batalha tal como definida pelos catálogos, por isso não existe; as colónias são tomadas pelos seus legítimos ocupantes, mas continuam a existir no mapa da metrópole como províncias ultramarinas, e na geografia da capital enquanto bairro.

Por detrás da figura do Imperador está evidentemente Salazar. É agora hilariante o seu processo de fechamento progressivo num autismo acrescentado pela surdez, que tão trágico foi de consequências. Mais hilariante ainda a ilusão da permanência no poder dada ao ditador pela sua corte de conselheiros já demitidos: «Tratariam o Imperador como se ele ainda estivesse no trono. A máquina das palavras continuaria a lavar os mexilhões e o Doutor a montar as caixas altas dos jornais. Nas estátuas não se tocaria, eram Arte! Nas notas de banco conservava-se a silhueta imperial iluminada a vinténs-ouro. Numa palavra, tudo na mesma, em faz de conta.» (pág. 130). Um governo fantasma, «um reino de duas-caras», sombra da Primavera marcelista a rebentar nas costas da cadeira quebrada e do seu alquebrado ocupante. A realidade pode ultrapassar a ficção.

Parece agora impossível que possa ter existido um Reino dos Mexilhões, mas só num reino assim poderiam os tanques da revolução respeitar os semáforos vermelhos. Cardoso Pires foi, continua a ser, mestre na arte da paródia. Relê-lo, a mais de 25 anos de distância, obriga a reflectir. O Dinossauro agora reeditado é mesmo Excelentíssimo e cresceu: libertou-se da imediaticidade dos referentes, adquiriu sentidos e proporções além da sociologia; uma enorme obra de arte.»

Helena Barbas

Sobre a re-edição de Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires (1999) – artigo publicado no Expresso-Cartaz 1382 de 30 de Abril de 1999.

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