Madalena perdida

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Maria Madalena em êxtase (1606) – Michelangelo M. da Caravaggio (óleo sobre tela 103,5 x 91,5 cms) Colecção particular

Descoberta em 2014, está a ser apresentada pela primeira vez numa exposição do National Museum of Western Art de Tóquio (Japão, até  12 de Junho de 2016) como a perdida “Maria Madalena em Êxtase” (1606) de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610).

Sabia-se da sua existência pelas ditas cópias de seguidores – uns 8 exemplares pelo menos – o mais conhecido de Louis Finson (Madeleine en êxtase de 1612, no Museu de Marselha) – e apesar das polémicas bem resumidas por Tancrède Hertzog, considera-se que só um, este, é legítimo. Quanto a este ponto, mesmo acreditando piamente na peritagem da historiadora de arte Mina Gregori que descobriu o quadro numa colecção particular europeia, surgem de imediato duas questões: a primeira é o facto de (com excepção de A Degolação de São João Baptista de 1608) Caravaggio nunca assinar as suas obras; a segunda é o outro facto de fazer ele próprio (como era costume ao tempo) duplicados e reproduções do seu próprio trabalho que tivesse mais sucesso (um problema para as avaliações).

Esta Madalena (com dois São Joões) é apresentada como sendo um dos três últimos quadros pintados por Caravaggio, que os leva consigo de barco na sua derradeira viagem de Nápoles para Roma em 1610. É abandonado em Porto Ercole, na Toscana, onde morre de febres (ou assassinado) e a preciosa carga segue o seu caminho. Um dos patronos do pintor – o Cardeal Scipione Borghese – pede que as obras lhe sejam enviadas e recebe apenas um S. João. Sabe-se que as outras duas telas terão ido parar à custódia da amiga e protectora de longa data Costanza Sforza Colonna, irmã do Cardeal Ascanio Colonna e Marqueza de Caravaggio. O quadro da Madalena terá estado em Roma até inícios do século XVIII antes de desaparecer.

Quando se procura por Costanza aparece identificada com a Madalena do quadro Marta e Maria (1598) mas há dois retratos dela, um a fresco, outro atribuído a Scipione Pulzone – que a mostram mais parecida com Santa Catarina ou mesmo Judite

costanza-sforza-colonna

Por aqui pode rebater-se um lugar-comum (folclórico) que Caravaggio usava prostitutas para os modelos sacros, decorrente das leituras de O Retrato de uma Cortesã (1598):

Caterina_Fillida

O nome de Caterina Campi, mulher do amigo Onorio Longhi, e só por causa da flor que traz ao peito, dá lugar ao de Fillide Melandroni, uma famosa prostituta romana, que é transformada em modelo único e de eleição para todas as figuras femininas (sejam parecidas ou não). De Caterina/Fillide parece haver um outro exemplar no Museu de San Diego (não interessa aqui a autenticidade, mas as semelhanças que são grandes).

Tendo em conta os 92 desenhos inéditos entretanto encontrados (2012), percebe-se que Caravaggio, como todos os artistas, faz esboços de figuras polo natural, estudos de movimentos e emoções que vai posteriormente utilizar nos seus quadros. Uma sua tia – Margheritta Aratori – aparecerá como Sant’Ana em Nossa Senhora dos Palafreneiros 1606 – era ama dos filhos de Costanza e Michelangelo, junto com a irmã Caterina Merisi, tinham estatuto de colaços. Também era moda ao tempo as senhoras nobres darem pelo menos a cara para se fazerem representar como Madalena(s) – tal a de Jan Mabuse Grossaert em 1530; a Arquiduqesa Maria Madalena de Áustria pintada como Maria Madalena por Justus Suttermans entre 1625-1630, ou até uma inglesa, Jane Needham, Mrs. Myddelton, em 1670, pelo pincel de Sir Peter Lely.

Não se percebe se foi a Marqueza quem serviu de modelo para a perdida Madalena agora reencontrada, mas gostaria de pensar que Costanza, 16 anos mais velha que Caravaggio e na altura com fama de viúva algo alegre, terá guardado o quadro ela própria por mera devoção.

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