Jeanne DuVal – o direito ao bom nome (4)

De entre os locais visitados em demanda de Jeanne Duval, apareceu o Museu d’Orsay, com a exposição ‘Le modèle noir de Géricault à Matisse’, entre 26 de Março e 21 de Julho de 2019. Quando se abre o dito sítio, somos logo e ainda presenteados com a obra de Manet – ‘A Amante de Baudelaire, reclinada’ – mas com o título ‘Jeanne Duval’. Vai então replicar e reproduzir todo o folclore ‘duvalesco’ – na página 4 com outro dos desenhos de Baudelaire, sem nome, como retrato indiscutível da dita.

A exposição tem o grande mérito de abordar temas que podem ser tabus na sociedade francesa de novecentos, mas não fizeram os trabalhos de casa. Desde sempre que há modelos negros na pintura, meninos e meninas, não é novidade na arte ocidental (chamam-lhes os Orientalistas), assim os sujeitos tenham meios financeiros para isso. À jovem acima, que insisto em atribuir a Jean-Étienne Liotard, gostaria de juntar uma outra figura, de Annibale Carracci ‘Retrato de mulher negra segurando um relógio de ouro’ (c.1580):

A exposição acaba contaminada em parte pelo que pretende condenar – na wikipédia há a lista de todas as obras referidas. Quando ao tempo se fala de ‘négresse’ e ‘vénus noire’ não são só as figuras acima os modelos em causa.

Durante o século XIX todos os estados europeus são ainda potências coloniais que gradualmente se começam a esboroar. Em Portugal o abanão só se torna real com o Ultimato Britânico de 1890. Mas em França, em 1803 os Estados Unidos compram a Louisiana e a revolução pela abolição da escravatura (1791) culmina em 1804 com São Domingos a proclamar-se a República independente do Haiti.

À semelhança do que acontece com os huguenotes, fica-se à espera que a Revolução francesa venha a modificar a situação dos escravos – das pessoas de ‘cor’. Napoleão vai fazendo um esforço. A escravatura é abolida pelas leis de 1793, e de 1802 – irregularmente aplicadas em particular nas colónias (só em algumas). Dando continuidade à Société des amis des Noirs (1788), a Société française pour l’abolition de l’esclavage, fundada em 1834, com participações em congressos e assembleias nacionais, fica a funcionar até 1848. Pelo intervalo dos tumultos da Monarquia de Julho  e Restaurações, a legislação vai ficando para trás.

Os estereótipos mantém-se, entre o negro bom-selvagem guerreiro valoroso (alimentado pela criação do corpo dos Atiradores Senegaleses em 1857) e o mau-selvagem passível de ser explorado e colonizado.  Regressando à temática da exposição, inauguram com o quadro de Marie-Guillemine Benoist, apresentado no ‘Salon’ de 1800. Trazem também, de Delacroix, Aline la mulâtresse ou Portrait d’Aspasie la Mauresque (1824). O exemplo da escultura, em bronze, também com o título ‘Une Nubienne’ no ‘Salon’ de 1851, é de Charles Cordier. Daqui poder-se-iam acrescentar os versos de Anaïs Ségalas, de facto crioula de São Domingos, escritora também de ‘vaudevilles’, e com poemas como Les Algériennes (1831) cheios de boa vontade.

O pano de fundo do que é artístico deixa de parte o que, sob a capa de etnografia, se transforma em caso clínico ou monstruoso. Em 1810 inaugura a exposição/exibição da Vénus Hotentote – Saartjie Baartman exemplo da ‘mulher selvagem’ por oposição à ‘branca’ normal. Percorre a Europa como fenómeno – e exemplo patológico das discrepâncias entre as raças brancas e negras, acaba dissecada por George Cuvier em 1815.

Invocando até Kant – Ensaio Sobre as Doenças da Cabeça (1764, 1768, 1798) «… quem tenciona tornar inteligente um estulto é como quem lava um negro.» (p. 216) – em 1859, Arthur de Gobineau (mestiço), no Essai sur l’inégalité des races humaines , em 4 volumes, prova cientificamente a inferioridade dos negros. A escuridão da pele era sinal de fraqueza intelectual. O branqueamento até poderia ter piada caso não houvesse tratados a graduar os vários tipos de tom de pele (até 128 nalgumas propostas) – e a aventar que, se os escravos fossem brancos de mais, poderiam ser marcados com ferros em brasa para não tentarem fugir. De par há a hierarquia social decorrente. Segundo Micheline Labelle, e só para o Haiti – Idéologie de couleur et de classes sociales en Haïti – são dezenas os vários termos vocabulares para as diversas cambiantes, que naturalmente implicam um equivalente no estatuto social.

Os quadros e esculturas das representações dos negros enriquecem as colecções antropológicas. Em 1877 vários grupos étnicos são exibidos em jaulas no Jardin d’Acclimatation, Paris; as exibições das danças Zulus tornam-se atracção em 1879 nas Folies Bérgère.

Tendo em conta este enquadramento, da perspectiva de Jeanne Duval ser apelidada de ‘négrésse’ e ‘vénus noire’ é mais um insulto a acrescentar aos demais.

Da parte de Charles Baudelaire o elogio da negritude torna-se uma atitude extraordinariamente inteligente e revolucionária. Consegue desligar-se dos clichés que o envolvem, e louva um outro modelo do feminino para lá de ideais literário-petrarquistas ou românticos.

Baudelaire tem a sua experiência directa de exotismo entre 9 de Junho de 1841 e 15 de Fevereiro de 1842 (8 meses), quando parte e regressa a Bordéus, a caminho de Calcutá. O barco, depois de uma tempestade, muda de rota, pára na Ilha da Reunião, depois na Ilha Maurícia. E em 20 de Outubro de 1841, envia ao padrasto uma carta com um soneto dedicado à mãe: «Au pays parfumé que le soleil caresse, J’ai vu, dans un retrait de tamarins ambrés…» [No país perfumado que o sol acaricia, eu vi, num recanto de tamarindos de âmbar…] – É o início de “À une dame créole” um dos poemas que aparece trabalhado em as ‘Fleurs do Mal‘. Antes ainda se se instalar em Paris, antes ainda do encontro com Jeanne Duval e outras ‘négresses’.

A proposta é que ele põe em prática as suas próprias teorias literárias – como exposto no seu poema-manifesto do futuro simbolismo ‘Correspondences‘; que recorre à estratégia antiga da ‘eckphrasis‘ relativamente às obras de arte dos pintores com que se confronta directamente, e indirectamente também devido à sua actividade de crítico de arte.

Helena Barbas

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