Jeanne DuVal – o direito ao bom nome (3)

Todas as informações escritas sobre Jeanne Duval vêm (do que sobrou) da pena de Baudelaire, ou das suas biografias mais imediatas: os elogios fúnebres de Nadar (já referido) e Banville (que o confirma), de Eugène e Jacques Crépet (o pai ex-censor e crítico de ‘As Flores do Mal’, que demora 20 anos a divulgar o espólio) as correspondências com a mãe, e com o notário Narcisse Ancelle. Baudelaire mente a todos, mas lá chegaremos.

Tal ‘Dama das Camélias’ – em ‘vaudeville’, nos arrabaldes – insistem todos que o primeiro encontro deste amor fatal se deu num teatro. Porém, para o caso de Jeanne ser protestante, sabemos pela tradição puritana (inglesa e outras), que tal não poderia ser ainda mais ofensivo. Adiante.

Assim sendo, uma segunda hipótese para o encontro do par – Nadar sempre a servir de testemunha-alcoviteira – é Março de 1842, tendo por cenário o suburbano Théâtre de la Porte Saint-Antoine. De propriedade privada, é criado em 7 de Dezembro de 1835, desaparece em 1842, sendo substituído pelo Theatre Beaumarchais, depois Ópera Bouffe Française entre 1843-49 e, por fim, pelas Fantaisies Parisiennes em 1878 – no Boulevard Beaumarchais, 7504 Paris:

Boulevard Beaumarchais, Paris, 1845

Tendo em conta os reportórios, o Théâtre de la Porte Saint-Antoine abre na ‘saison’ de 1837 com Fanchon la vielleuse, uma comédia em 3 actos misturados com ‘vaudevilles’, da autoria de Jean-Nicolas Bouilly e Joseph Pain. A cena passa-se no Marais, num ‘hotel’ que pertence a Fauchon. Na ‘saison’ de 1838, a 7 de Julho, estreia Céline la Créole – ou l’Opinion, drama em cinco actos, EM PROSA, de Jules-Édouard Alboize de Pujol, com adaptação de Léon Gozlan.

Segundo as críticas dos jornais da época, o Théâtre Beaumarchais, com direcção de Anténor Joly, abre a 21 de Junho de 1849 com ‘Vieux Prix de Rome’ de Henri-Hypollite Potier, uma peça em um acto, re-fechando a 14 de Setembro de 1849 para obras de restauro que acabam em 3 de Janeiro de 1856.

Pelos pormenores, cenários e identificação dos actores, em nenhuma das peças aparecem ‘soubrettes’, nem Dorines.

Regressando ao problema das idades mais defendidas dos principais interessados (Baudelaire nasc. 1821, Jeanne nasc. 1827) em 1842 Baudelaire teria 21 anos (e não 24) e Jeanne 15 (ou 44) . Nadar só se encontra com Baudelaire em 1843.

Falando de teatro e amores fatais, haveria uma representação com cenário mais adequado, que também estreia fora de tempo (embora haja paródias e reposições contemporâneas), a 29 de Fevereiro de 1836, Les Huguenots. Inaugura o modelo da ‘grande ópera’, em cinco actos, do judeu-alemão Giacomo Meyerbeer, com libreto de Eugène Scribe e Émile Deschamps, no tempo histórico da Noite de S. Bartolomeu. Tem reposições nacionais e internacionais (uma recente, em 2018, na Bastilha, com um dossier temático muito esclarecedor).

Este ponto tem a ver com o facto de, na altura, existirem ‘huguenotes’ em França, e em Paris, provavelmente à espera de melhores tempos após a Revolução. Sabe-se que, desde Calvino, a grande área de influência é a imprensa – editores e livreiros. Também uma das suas práticas usuais é ir trocando de nome, por protecção. A nível social mais elevado teriam os seus círculos culturais, os seus ‘salons’, mantendo contacto sem fazer grande alarido. Por exemplo, sabe-se que da família Amaury-Duval o pintor foi aluno do amigo de seu pai, Ingres; frequentava o ‘salon’ de Victor Hugo, conhecia Charles Nodier. Até, segundo os seus Souvenirs, vir a criar o seu próprio ‘salon’ (com ajuda da irmã) – e que Alexandre Dumas (esse, de facto mulato) se sentia suficientemente à vontade para lhe bater à porta a pedir abrigo a meio da noite.

Talvez por via desta rede sub-cutânea se possa melhor explicar as súbitas embirrações de Baudelaire com alguns dos seus ídolos juvenis – como relativamente a Victor Hugo. E também a quantidade de problemas que vai tendo com os vários editores nas tentativas de impressão das suas obras – até o facto de fazer contratos, em duplicado e ao mesmo tempo, para as mesmas publicações com diferentes pessoas.

Assim, Baudelaire mente, a todos. Relativamente a Jeanne, diz/escreve aos amigos que as exigências dela lhe cortam a criatividade; que lhe está sempre a pedir dinheiro; e ele a pedir por causa dela; é nas missivas dele que ela aparece com os vários nomes. Na carta já referida, enviada de Dijon a Ancelle, quinta-feira 10 de Janeiro de 1850, incomoda-o a possibilidade deste e Jeanne se virem a entender. Diz: «JEANNE, QUE J’AI BEAUCOUP TOURMENTÉE AU SUJET DE SA CONFÉRENCE AVEC VOUS, m’affirme que vous lui avez dit que si elle vous écrivait un mot qui vous démontrât la nécessité d’une avance, vous la feriez sans doute…» [JEANNE, QUE MUITO ATORMENTEI POR CAUSA DA CONFERÊNCIA DELA CONSIGO, afirma-me que você lhe disse que se ela lhe escrevesse uma palavra que demonstrasse a necessidade de um adiantamento, você sem dúvida o faria…]

A 7 de Maio de 1864, já do ‘Hotel du Grand Miroir’, em Bruxelas (desaparecido em 1912) diz: «Mon cher Ancelle, // Je tâcherai de trouver le temps de vous écrire cette semaine. Mais je vous supplie d’envoyer 50 fr. à Jeanne, sous enveloppe (Jeanne Prosper, 17, rue Sauffroy, Batignoles). Je Iaisse dormir le prix de mes lectures, et je le réserve pour mon maître d’Hôtel à Paris. J’ai beaucoup de choses à vous dire. Impossible, aujourd’hui. Il a paru un autre article dans ‘L’Independence’, mais je ne l’ai pas sous la main. Je crois que cette malhereuse Jeanne devient aveugle. Je vous écrirai plus convenablement dans deux ou trois jours. Je suis affreusement occupé. Je vous envoie ce reçu fait d’avance, por éviter tout contact entre elle et vous.» [Caro Ancelle, // Tentarei arranjar tempo para lhe escrever esta semana. Mas suplico que envie 50 fr. à Jeanne, num envelope (Jeanne Prosper, 17, rue Sauffroy, Batignoles). Deixo em suspenso o preço das minhas conferências e reservo-o para meu mordomo em Paris. Tenho muitas coisas para lhe dizer. Impossível hoje. Apareceu um outro artigo no ‘L’Independence’, mas não o tenho à mão. Parece-me que essa infeliz Jeanne está a ficar cega. Escrever-lhe-ei mais convenientemente dentro de dois ou três dias. Estou ocupadíssimo. Envio-lhe este recibo adiantado para evitar qualquer contacto entre si e ela.]

Hotel du Grand Miroir, Bruxelas

Helena Barbas

[continua no próximo número]

 

 

 

partilhar