Jeanne DuVal – o direito ao bom nome (2)

Para re-começar, nenhum dos desenhos de Charles Baudelaire que por aí andam como ‘retratos’ de Jeanne Duval são assim por ele nomeados. No máximo pode dizer-se que haverá um modelo comum a alguns, nada mais. As representações feitas por outros partem de uma descrição aberrante feita por Felix Nadar.

No elogio fúnebre – Charles Baudelaire intime – Le poète Vierge – mais caricatura que encómio, Felix Nadar relata o primeiro encontro entre Jeanne e Charles – com informações que tem sido tomadas por boas. Data o episódio para 1839-40, em que o Claustro de S. Bento se transformou no Théatre du Panthéon. Descreve a sala, o lugar habitual na ‘orquestra’, o espectáculo que vai ver – a 88ª. representação de ‘L’Avocat’ (que já sabe de cor) – o vizinho costumeiro, crítico de jornais grande especialista (de 24 anos de idade) que está atrasado (Charles Baudelaire). Estende-se pela enumeração dos dotes de uma artista secundária-corista – soubrette, herdeira de Dorine – que espanta pela altura (gigantesca) e côr de pele (negra): «ce n’est rien: cette soubrette d’extradimension est une négresse, une négresse pour de vrai, une mulatresse tout au moins, incontestable: le blanc écrasé à paquets n’arrive pas à palir le cuivre du visage, du cou et des mains.» [nem menos: essa ‘soubrette’ extra-dimensional é uma negra, uma negra de verdade, uma mulata pelo menos, incontestável: o branco espalhado em pastas não consegue empalidecer o cobre da cara, do pescoço e das mãos.] (p.10).

E continua (por várias páginas) com a explicação dos dotes incomuns desta ‘négresse’, incluindo a crina crespa, que vieram colar-se ao nome de Jeanne Duval: «La taille est longue en buste, bien prise, ondulante comme une couleuvre, et particulièrement remarcable par l’exubérant, l’invraisembable dévelopment des pectoraux…» [O corpo tem o busto alto, bem lançado, ondulando como uma cobra, e particularmente notável pelo exuberante, o inacreditável desenvolvimento dos peitorais …] (p.11).

O relato a seguir, sobre o próprio Baudelaire, não é mais generoso, e menos ainda o hipotético amor à primeira vista entre estas duas figuras burlescas – tendo logo concordado ambos num romance adúltero, abençoado pela criada loura da ‘négresse’/’Vénus noire’ (entretanto quarentona e viúva), que trata o amante por ‘Monsieur’.

Deste texto, a invocar mais as fotografias dos casos clínicos feitas por Nadar para Duchenne, há uma outra aberração: é que Jeanne (mesmo Duval) sabia ler e escrever (p.23-24): «De l’ethopée un souvenir, persistant, objectif, de ces quelque lignes d’un billet de Jeanne:  «… On sonne un gros coup. J’étais couchée et Louise sortie. Ce ne pouvait être que toi. Je cours ouvrir en chemise. Personne! Mais à travers la cour, de mon rideau je vois ton étourneau de frére qui file comme un cerf volant. Qu’est que tu voulais? Viens me le dire…» // Cette lettre n’a pu grossir le dossier pour graphologues recueilli par la piété dynastique de nos excellents Crépet. Notre enragé la brula, l’ingrat, dans l’universel et correct autodafe de toutes ses Sevignés, la veille du jour inouï où, comme tout le monde, conclusivement et pour un instant soufler de sa personne, – il se maria!…» [Desta etopeia uma lembrança, persistente, objectiva, de umas poucas linhas de um bilhete de Jeanne: “…Bateram com força à porta. Estava deitada e Louise tinha saído. Só poderias ser tu. Corro a abrir em camisa. Ninguém! Mas pelo pátio, pela minha cortina, vejo-te com silhueta de um estorninho a fugir como um papagaio de papel. O que é que querias? Vêm lá dizer-mo…”//Esta carta não vai poder engrossar a pasta para grafólogos recolhida pela piedade dinástica dos nossos excelentes Crépet. O nosso exasperado queimou-a, o ingrato, no universal e corrector auto-da-fé de todas as suas Sevignés, na véspera do dia inusitado em que, como toda a gente, conclusivamente e para por um momento sair da sua pessoa – ele se casou!”.

Que se saiba, Baudelaire nunca casou.

Um segundo ponto relaciona-se com a representação teatral de 1839-40. Nadal refere terem ido ver ‘L’Avocat Loubet’, um drama em 5 actos, depois de 88 representações, no Theatre du Panthéon. A peça estreou a 28 de Agosto de 1838 (um ano antes). L’Avocat Loubet (de Eugène Labiche, Auguste Lefranc e Marc-Michel) é um drama em 3 actos, inaugurado na noite de S. João, em Aix-en-Provence. Não tem coristas nem ‘soubrettes’.

Outra distorção terá a ver com as idades (ela quarentona, ele com 24 anos). O único documento que se conheceria a permitir calcular a idade de Jeanne é um registo (perdido) de uma entrada na Casa de Saúde Dubois, agora hospital Fernand-Widal, por informação do acima citado Jacques Crépet. Inicialmente fundada por S. Vicente de Paula, em meados do século XIX tem 80 camas – 40 a pagar, 40 para caridade. Jeanne Duval terá sido hospitalizada em 1859, natural de São Domingos, com 32 anos – o que a poria a nascer em 1827. Considerando a fotografia de Nadar como boa – de cerca de 1855 – Jeanne não terá ali 28 anos, será mais nova. Se a data da hospitalização estivesse certa, esta Jeanne Duval teria 11 anos quando do espectáculo/encontro com Baudelaire. Este, por sua vez, nasceu em 1821 – teria 17 anos e não 24. E em 18 de Abril de 1838 está a ser expulso do Collège Louis-le-Grand.

Sobre a aberração de Jeanne, mesmo Duval, saber escrever, há notícia de cartas por ela enviadas à mãe de Baudelaire – Caroline Archenbaut-Defayis, Madame Aupick que as destrói depois da morte do filho por só falarem de dinheiro.

Em 10 de Janeiro de 1850 Jeanne Duval, também Mademoiselle Lemer, é enviada por Baudelaire como mensageira, portadora de uma carta fechada, que entrega ao notário-tutor – Narcisse Ancelle – a pedir fundos e discutir questões financeiras. Nesta ocasião (e pela segunda vez, a primeira foi a 30 de Junho de 1845), Baudelaire nomeia Jeanne como sua herdeira. Tendo em conta os autos de dívida que ainda existem em nome dele, e o ‘Inventaire après décès de Charles Baudelaire’ pode implicar responsabilizá-la pelos pagamentos em falta – o que parece ser um presente muito envenenado.

Lemer é também o nome de um Editor – Julien Lemer – com quem Baudelaire se vai encontrar na Bélgica para discutir a publicação da sua obra.

Helena Barbas

[continua no próximo número]

 

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