história, religião

jacentes de pernas cruzadas

Cavaleiros de pernas cruzadas – Igreja do Templo, Londres

Por que será que as efígies tumulares dos cavaleiros de pernas traçadas incomodam tanto… Segundo um lugar comum popularizado, o local e tipo de cruzamento das pernas (pés, joelho, coxa) correspondem ao número de vezes que os indivíduos terão estado em cruzada na Terra Santa. Tanto pela versão blogueira, quanto pela mais erudita (Rachel Dressler) a conclusão é que não interessa nada – e que não se referem nem ex- nem implicitamente a Templários. São uma mera moda, ou vaidade – mesmo quando se percebe que há estátuas que foram mutiladas.

Torna-se difícil crer, pensando na dificuldade do trabalho sobre a pedra, nos pormenores premeditadamente elaborados, na época eminentemente simbólica.

Nas tradições tumulares portuguesas – o cuidado (religioso) é o reencontro na ressurreição quando do Juízo Final: desejado, face a face (Pedro e Inês) ou de mãos dadas (João I e Filipa de Lencastre); ou que se procura evitar (Dinis e Isabel). Também se encontra – segundo Pedro Chambel – uma maior preocupação com a ‘exemplaridade’ desse momento do regresso à vida.

Robert Curthose (1051-1134) – Catedral de Gloucester

Transpondo, os cavaleiros de armadura completa, de olhos abertos, exibem-se dramaticamente preparados para combate, alguns já a sacar da espada. Numa listagem em «The Medieval Combat Society -Twelfth to Fourteenth Century Armour» são umas centenas. Também temos exemplos portugueses – Lopo Fernandes Pacheco (1280-1349) na Sé de Lisboa.

No caso dos ingleses acima – da mesma família – fundaram os Templários em Inglaterra, construíram a Igreja do Templo onde jazem, elaboraram a Magna Carta – que ainda por lá se encontra. William Marshal, Conde de Pembroke é, em França, Guillaume Le Maréchal, Comte de Striguil, herói anglo-normando de uma gesta com perto de 5.000 versos – transcrita por Paul Mayer, em 3 volumes. Protagoniza um romance de Georges Duby, Guillaume le Maréchal: Ou le meilleur chevalier du monde e é ‘the King’s Guard’ na série “Game of Thrones”.

Sobre o cruzar das pernas, não estará relacionado com alguma forma particular de enterro – nos documentos sobre ritos funerários e embalsamento os corpos são embrulhados numa mortalha, com os membros unidos.

Enterro de S. Benedicto – Livro de Horas, França, Paris (1485-1490) – Morgan – MS M231 fol. 137r

Nas gravuras medievais, mais ou menos contemporâneas, o cruzar da perna por cima do joelho é sinal de poder (reis, sacerdotes, juízes). O Rei Salomão a administrar Justiça, cruza a perna da direita para a esquerda; o Rei Eduardo I, a ser envenenado, cruza da esquerda para a direita:

[Esq.] Bíblia, França, Paris (1250), MS G.31, fol. 190v.
[Dir.] Abregé des Histoires Divines, Amiens (1300-1310) MS. M.751 fol. 96v.

Esta ginástica vai ter o seu eco nas figuras dos Tarots medievais – Arcanos Maiores (Marselha):

Tarot de Marselha

e nalguns menores do Sforza, por exemplo – perna no Rei de Ouros, pés no Rei de Espadas:


Francesco Sforza 1451

Sobre uma possível simbologia física, há um Manuscrito – Ordonances of Chivalry – que associa os vários signos zodiacais a cada uma das partes do corpo:

Aos pés corresponde Peixes, às canelas, Aquário, aos joelhos Capricórnio e, às coxas, Sagitário. Qual a utilidade, ficará por saber. O mesmo sobre a bondade ou não das referidas partes – em termos teatrais, o lado esquerdo é negativo (demoníaco) e o direito positivo (angelical). A escolha dos membros e posição nas efígies é premeditada, se encaixa nestas categorias também ficará por saber.

partilhar