Ana Luisa Amaral agrega neste volume toda a sua poesia até 2010. Inclui o já publicado em Poesia Reunida (1990-2005); adiciona-lhe os livros posteriormente lançados – Entre dois Rios e Outras Noites (2007, grande prémio APE) e Se fosse um Intervalo (2009); e acrescenta-lhes mais de uma vintena de inéditos. O principal problema destas reedições e compilações é que, reunidos, os livros contaminam-se. Cada nova publicação infecta as antecedentes, enriquece a leitura dos versos, aumenta-lhes os sentidos possíveis. Mas também destrói as interpretações anteriores que deles foram sendo feitas, obrigando a que as críticas se revejam e (r)emendem.

Da falta que fazem as poéticas, da segurança dos velhos Aristóteles e Horácio, já Garrett e Herculano se queixavam. Teoricamente, sobre este livro de Ana Luísa, poderia falar-se de relações intertextuais internas e externas (mas todos as têm – e lá vem ela outra vez com as suas ‘cebolas’): «Ah, quando eu escrevia/ de beijos que não tinha/ e cebolas em quase perfeição» (p.635). Que faz experimentações com o poema em prosa, com formas dramáticas – em diálogo ou monólogo. Que brinca com o soneto, recuperado e desmontado em forma e conteúdo. Que entrou pela tentação surrealista. Que desenvolve uma reflexão metapoética. Perante estas 654 páginas de poemas, muitas etiquetas haveria, e todas genuínas.

O certo é que não há uma nomenclatura para ler este livro além daquela que a própria autora nos quiser oferecer (Kant dixit), e oferece disseminada pelos seus versos. Ana Luisa Amaral sabe disto. Diverte-a. E diverte-se na especulação de todas as possíveis combinações da linguagem, das suas regras e gramáticas, na exploração das formas tradicionalmente atribuídas à poesia (pelas poéticas) que questiona por dentro e por fora. Tal é atestado pelo nome que deu a este livro – Inversos – o contrário dos versos, ou o seu avesso: «Que mais fazer/ se as palavras queimam/ e tanta coisa em fumo em tanta coisa/ sarças ardentes do avesso/ o fogo em labaredas que mais/ fazer/[…] / Mas que fosse o castigo era melhor/ que estas nuvens de fumo na sarça/ do avesso e tudo do avesso/ nas palavras // que não chegam/ mas cegam». (p.635).

As palavras não chegam, ficam aquém da experiência que se pretende dizer: «Todo o poema/ é um estado de paixão/ cortejando o reflexo/ daquele que o criou» (p.639) – o paradoxo de Narciso que, se agarrar a imagem sua que vê na água, a destrói. Cada poema é outra tanta tentativa de captar essa representação, arquetípica e elusiva. Uma contínua luta com um anjo, muito pessoal e pouco transmissível.

H.B.

Inversos – Poesia 1990-2010 – Ana Luisa Amaral – Dom Quixote, Lisboa, 2010, 656 pgs.

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