Henry Fielding turista em Lisboa (1754)

Henry Fielding por Jonathan Wild the Great, 1743

Henry Fielding embarca para Lisboa a 26 de Junho de 1754 em demanda de bom sol e cura para os seus achaques – gota, asma e uma tuberculose avançada, tem 47 anos. Portugal e o sul de França são destinos eleitos para estes primeiros turismos de saúde. Deixa-nos no seu “Diário de uma Viagem a Lisboa” [The Journey of a Voyage to Lisbon] uma descrição da entrada na cidade onde vem a morrer em 8 de Outubro desse ano. Depois deste Diário só se encontrou uma carta, sem data, endereçada ao irmão – John Fielding – onde descreve pormenores da sua estadia em Belém, na Junqueira, e de pretensas melhoras. Fielding não diz que vem acompanhado da família (a segunda mulher Mary Daniel, a filha Harrit, Margareth Collier tutora, William e Isabela Ash, criados), e divaga pouco poeticamente sobre estas terras: confunde Catarina de Aragão com Catarina de Bragança; refere o eremitério dos Capuchos, em Sintra, não visível a partir do mar, janta numa estalagem mantida por ingleses (ali na actual rua de Buenos Aires) . No prefácio a este Diário refere: “Estava agora, na opinião de todos os homens, a morrer de uma complicação de desordens…” Tal não impede que as suas más impressões sobre Portugal se venham a tornar um lugar-comum repetido e consagrado pelos visitantes posteriores (e ainda hoje alimentado até na Enciclopédia Britânica). Em particular no que respeita à caricatura da severidade dos “magistrados da saúde” e regras de quarentena.

Porto de Lisboa, século XVIII

«Segunda-feira 5 de Agosto 1754. De manhã, o nosso capitão concluiu que chegara à latitude 40º, e que estávamos muito perto das Berlengas, como são chamadas nos mapas. Avistámo-las às cinco da tarde, sendo a primeira terra que vimos distintamente desde que deixámos o Devonshire. Consistem numa abundância de pequenas ilhas rochosas, a uma pequena distância da costa, mostrando-se apenas três delas acima da água.
Aqui os portugueses mantém uma espécie de guarnição, se lhe podemos dar esse nome. Trata-se de malfeitores que durante algum tempo para ali são banidos por diversas pequenas ofensas. Uma política que devem ter copiado dos egípcios, como podemos ler em Diodoro Sículo. Aquela gente sábia, para evitar a corrupção dos bons costumes por contaminação do mal, construiu uma cidade no Mar Vermelho para a qual transportava um grande número dos seus criminosos, tendo-lhes primeiro feito uma marca indelével para evitar que regressassem e que se misturassem com a parte sóbria dos seus cidadãos.
Estes rochedos ficam a cerca de quinze léguas a nordeste do Cabo da Roca ou, como é habitualmente chamado, a Rocha de Lisboa, que cruzámos cedo na manhã seguinte. O vento, de facto, ter-nos-ia levado até lá mais cedo, mas o capitão não mostrava pressa, pois não tinha nada a perder com a demora.

Terça-feira, 6 de Agosto 1754. Isto é uma montanha muito alta situada no lado norte da boca do Rio Tejo, que nascendo acima de Madrid, em Espanha, depressa se torna navegável para pequenas embarcações, e após um longo curso, desagua no mar, a cerca de quatro léguas abaixo de Lisboa.
No topo da Rocha há um eremitério. Está agora na posse de um inglês que, anteriormente fora mestre de um navio mercante comerciando para Lisboa e, tendo mudado de religião e de costumes, os últimos dos quais, pelo menos, não teriam sido dos melhores, retirou-se para este lugar a fim de fazer penitência pelos seus pecados. Agora é já muito velho e habita este eremitério há um ror de anos, durante os quais foi recebendo algum apoio da família real, em particular da actual rainha-mãe, cuja piedade não se poupa a trabalhos ou despesas para poder vir a fazer um prosélito, e tendo o hábito de dizer que salvação de uma só alma lhe recompensaria todos os esforços da sua vida.
Aqui esperámos pela maré cheia, e tivemos o prazer de observar o rosto do país, cujo solo, nesta época, se assemelha exactamente a um arroio de tijolo velho, ou a um campo onde a relva verde foi aparada e posta a arder, ou antes a deitar fumo, em pequenos montes, para fertilizar a terra. Talvez de entre todas seja esta visão que mais faça um inglês ficar orgulhoso e contente com o seu próprio país, o qual, segundo creio, é superior a todos os outros pela verdura. Outra deficiência é a ausência de árvores grandes pois, na circunferência de muitas milhas, nada se pode aqui descobrir acima de um arbusto.
Neste local recebemos a bordo um piloto o qual, sendo o primeiro português com quem falávamos, nos deu um exemplo daquela observância religiosa que é paga por todas as nações às suas leis: porque, enquanto aqui é ofensa capital assistir qualquer pessoa que vai a terra vinda de um navio estrangeiro antes de ser examinada e observada, com todas as pessoas nele, pelos magistrados da saúde, como são chamados, este valoroso piloto, por uma recompensa módica, levou daqui até onde lhe era proibido avançar o padre português, a remos para terra. E, arriscando-se tanto, dera testemunho suficiente do amor pela sua terra natal.
Não entrámos no Tejo senão ao meio-dia quando, depois de passarmos por vários castelos antigos e outros edifícios que tinham em grande parte o aspecto de ruínas, chegámos ao Castelo de Belém, onde tivemos uma boa perspectiva de Lisboa, estando de facto a umas três milhas dela.
Aqui fomos saudados com um tiro, que era o sinal para não passar mais adiante até termos cumprido com certas formalidades, as quais a lei deste país exige que sejam observadas por todos os navios que chegam a este porto. Fomos obrigados então a lançar âncora e esperar a chegada dos oficiais da alfândega, sem cujo passaporte nenhum navio pode ir além deste ponto.
Aqui recebemos igualmente a visita de uns desses magistrados de saúde atrás referidos. Ele recusou-se a subir a bodo do navio até que toda a gente dele estivesse no convés, e em pessoa, à sua vista. Isto provocou algum atraso da minha parte, porque não era trabalho de um minuto elevar-me da cabina para o convés. O capitão pensou que o meu caso particular pudesse ter sido escusado a esta cerimónia; e que seria mais do que suficiente que o magistrado, que depois era obrigado a visitar a cabina, lá me vigiasse. Mas tal não satisfez a estricta preocupação do magistrado com o seu dever. Quando foi informado da minha fraqueza, clamou com voz de autoridade: «Ele que seja trazido para cima», e as suas ordens foram em breve obedecidas. Era de facto uma pessoa de grande dignidade, bem como dos mais exactos escrúpulos no cumprimento dos meus encargos. Ambos os quais são tanto mais admiráveis quanto o seu salário é inferior a 30 libras esterlinas ‘per anum’.
Antes de um navio ser visitado por um desses magistrados, nenhuma pessoa pode legalmente vir a bordo, nem ninguém de bordo o pode abandonar. Isto vi comprovado num exemplo notável. O jovem rapaz a quem mencionei como sendo um dos nossos passageiros, estava aqui para se encontrar como pai, o qual, às primeiras notícias da chegada do capitão, veio de Lisboa a Belém numa chalupa, ansioso como estava de abraçar um filho que não via há muitos anos. Mas quando chegou ao lado da nossa embarcação, nem o pai ousou subir, nem o filho descer, dado que o magistrado da saúde não estivera ainda a bordo.
Alguns dos meus leitores irão, talvez, louvar a grande precaução desta política, tão bem calculada para preservar este país de todas as enfermidades pestilenciais. Outros, com igual probabilidade, irão olhá-la como demasiado aborrecida e formal para que nela constantemente se persista, tanto em épocas da maior segurança, quanto em tempo de perigos. Não me decidirei por nenhuma, mas contentar-me-ei com observar que, nunca até agora vi ou ouvi lugar como este, que a um viajante fossem causados tantos problemas para poder desembarcar. Estes têm por única utilidade, dado que todos os assuntos começam e acabam apenas na forma, dar a tipos baixos e maus a possibilidade de serem, ora rude e excessivamente zelosos, ou grandemente corruptos, caso escolham a ocasião para gratificarem o seu orgulho ou a sua avareza.
Do mesmo tipo é igualmente aquele poder aqui institucionalizado em outros oficiais, de retirar todos os grãos de rapé e toda a folha de tabaco para cá trazida de outros países, embora apenas para uso temporário do viajante durante a sua estadia. Isto é executado com grande insolência e, como está nas mãos da escória do povo, muito escandalosamente: porque, como pretexto de procurar tabaco e rapé, é certo que irão roubar o que quer que encontrem, a tal ponto que qundo vêm a bordo, os nossos marinheiros nos avisam na linguagem de Covent Garden: “Por favor, senhoras e senhores, tenham cuidado com as vossas espadas e relógios”. Nada se compara ao desprezo e ódio que os nossos honestos lobos-do-mar expressaram a cada momento pelos oficiais portugueses.
Em Belém está enterrada Catarina de Aragão, viúva do príncipe Artur, filho mais velho do nosso Henrique VII, posteriormente casada com, e divorciada de, Henrique VIII. Perto da igreja em que os seus restos estão depositados, há um grande convento de Jeronimitas, um dos mais belos pilares da construção em todo o Portugal.
À noite, pelas doze horas, tendo o nosso navio recebido as visitas prévias de todos os grupos necessários, aproveitou-se a vantagem da maré, e tendo navegado até Lisboa, ali lançámos a âncora numa noite calma e luarenta, que tornou a passagem incrivelmente agradável para as mulheres que ficaram a gozá-la por três horas, enquanto eu era deixado aos transportes menos entusiásticos de gozar os seus prazeres em segunda mão. Porém, por menos entusiásticos que sejam, quem quer que seja totalmente desprovido de tal sensação e, ao mesmo tempo, despojado de todas as ideias de amizade.

Mosteiro dos Jerónimos, Belém, anonimo, séc. XVIII

Quarta-feira, 7 de Agosto 1754. Lisboa, diante da qual estamos agora ancorados, é dita ser construída sobre o mesmo número de colinas que a velha Roma, mas nem todas se distinguem a partir da água. Pelo contrário, daí vê-se um grande monte e rocha, com edifícios erguendo-se uns acima dos outros, numa maneira tão escarpada e quase perpendicular, que todos parecem não ter mais que um único alicerce.
Como as casas, conventos, igrejas, etc. são grandes, e todos construídos de pedra branca, parecem muito belos à distância, mas quando nos aproximamos e os descobrimos despojados de toda a espécie de ornamentos, toda a ideia de beleza se desvanece imediatamente. Enquanto me ocupava a observar a perspectiva desta cidade, que tem tão poucas semelhanças com qualquer outra que alguma vez tivesse visto, ocorreu-me uma reflexão: que se um homem fosse de Palmira até aqui, e não tivesse tomado as vistas de nenhuma outra cidade, em que luz gloriosa não lhe apareceria a arquitectura antiga? E quanta desolação e destruição das artes e ciências não iria ele concluir que se haviam dado entre as várias eras que separam estas cidades?
Entretanto, já tinha esperado mais de três horas no convés pelo regresso do meu valete, a quem enviara a terra para encomendar um bom jantar (uma coisa que há muito tempo me era desconhecida), e depois para que me trouxesse uma liteira de Lisboa com ele até à margem. Mas parece que a impertinência do provedor ainda não tinha chegado ao fim. Às três horas, quando pelo vazio do estômago já estava mais desmaiado do que esfomeado, o meu homem regressou e disse-me que havia uma nova lei recentemente publicada, segundo a qual nenhum passageiro deveria por o pé em terra sem uma licença especial do provedor. E que ele próprio teria sido enviado para a prisão por tê-la desobedecido, não se tivesse feito passar por criado do capitão. Informou-me igualmente que o capitão se mostrara muito activo para me arranjar aquela licença, mas que então era a hora de sono do provedor, um momento em que homem algum excepto o rei em pessoa, o poderia perturbar.
Para evitar a prolixidade, embora num episódio da minha narrativa que pode ser mais agradável ao meu leitor do que o foi para mim, o provedor, tendo por fim terminado a sua soneca, despachou este assunto formal absurdo, e deu-me autorização para partir, ou melhor, para ser levado para terra.
É difícil conceber o que em primeiro lugar possa ter dado ocasião a esta estranha lei. Possivelmente, na infância da sua defecção, e antes que o seu governo pudesse adquirir uma forma estável, andariam desejosos de se guardar contra a mera possibilidade da surpresa. O Cavalo de Tróia é um grande e memorável exemplo que justifica tantas precauções. Agora os Portugueses não têm muralhas para se protegerem, e uma embarcação de duas ou três toneladas será capaz de conter um corpo de tropas muito maior do que o que poderia estar escondido naquela famosa máquina, embora Virgílio nos diga (de um modo hiperbólico) que era tão grande como uma montanha.
Por volta das sete da tarde entrei numa cadeira em terra, e fui conduzido através da cidade mais nojenta embora, ao mesmo tempo, uma das mais populosas do mundo, para uma espécie de café, que está muito agradavelmente situado no cume de uma colina, a cerca de uma légua da cidade, oferecendo uma bela perspectiva do rio Tejo de Lisboa para o mar.
Aqui nos regalámos com uma bela refeição, pela qual nos foi igualmente cobrada uma bela quantia, como se a conta tivesse sido feita na estrada de Bath, entre Newbury e Londres.
E agora podíamos alegremente dizer:
“Desembarcando, os Troianos ganham a praia bem-vinda”.
Portanto, nas palavras de Horácio: “É este o fim da história e fim da jornada”.»

excerto de “O Diário de uma Viagem a Lisboa”, Henry Fielding, 1997,  tradução de Helena Barbas, Expo98 – ISBN 9728396309

 

partilhar