(na gaveta), literatura, pintura

Gazeta do Outro Mundo…

“Gazeta do Outro Mundo, escrita em verso e em prosa com as ­penas do Purgatório pela alma de um marido defunto, aparecendo na ­encruzilhada de um romance jocozo como coriza má de Apolo à sua viúva esposa tortolilhada*…” – inédito, 1641?

Retrato de Dama (1625-1635) – Museu de Évora

Romance:

      Minha mulher lá do mundo

ouvi os loucos lamentos

de uma alma que o Purgatório

deve a seu mesmo desejo

      Ouvi-me e acompanhai-me

e já  que fostes um tempo

a mulher de meus pecados

entrai a herdar meus tormentos

      Ouvi-me que tanto choro

que tem para si o Demo

que morreu o choramingas

e que por sua alma venho

      Aqui estou no Purgatório

esperando Bom Sucesso

porque depois de purgado

fica homem como um pêro

      Aqui vivo no borralho

como bolo de fermento

e crede que é um regalo

o Purgatório no Inverno

      Os Ministros destas penas

tanto que cheguei quiseram

por estar o carvão caro

sentenciar-me ao degelo

      Porém já graças a Deus

inteiramente me vejo

até por fora queimado,

com privilégios de Dedo

      Aqui entre labaredas

nesta masmorra me estreito

e é muito ter tantos fogos

um lugar que é tão pequeno

      Vede lá  como estarei

rodeado destes incêndios

se só com fogo no rabo

não há quem esteja quedo

      Sabeis vós que coisa é

salamandra, um bicho feio

pois heis-me aqui salamandra

Isabel, sem mais nem menos

      Tive votos para Fénix

mas nesta ausência em que peno

me fiquei por solitário

porque fénix era o mesmo

      Num mongibelo me abrazo

mas tão cruel, tão horrendo

que eu lhe chamo mongimonstro

chamai-lhe vós mongibelo

      Brazas como, cinza engulo

Chamas sorvo, tições bebo,

e somente do que cuspo

Se fazem mecha cá dentro

     Pórcia a que comia braza

tinha lindo entendimento

deu em não querer guizado

senão do seu fogareiro

      Não sei quem gosta de fogo

mariposas que o quiseram

são pássaros de bom gosto

que andam de noite ao candeio

      No tempo em que eu era vivo

uma vez fogo me deram

e o fez por força cupido

chegando-mo a pôr nos peitos

      Dele estou hoje até aos olhos

e em tais alturas me vejo

que o lume dos olhos cuido

que me quer fugir de medo

      Tanto conservo a quentura

que para este entrudo temo

que me empreste algum demónio

por forno, a algum pasteleiro

      Dizei vós lá à Abadessa

se me quer para o Mosteiro

por lampião de dormitório

que eu sempre estarei aceso.

      Novas deste purgatório

são, mulher, ficar ardendo

crede-me que para assado

não me falta mais que o espeto

      Sabei que neste lugar

Demónios os pensamentos

quanto a desejos tentaram

a memórias atormento

      Aqui sou alma, sou chama

porque neste meu incêndio

chego a braza de mim próprio

à sardinha de mim mesmo

      Aqui me têm por danado

porque como a vós vos deixo

suspeito que ao Purgatório

pode vir gente do Inferno

      Dizeis-me que por viúva

queireis casar, tem seu geito

que hoje qualquer viúva leva

o seu marido em capelo

      Vós o lançareis na cova

como a mim e eu lhe prometo

que antes de estar no jazigo

o ponhais vós de carneiro

      Lá vos casais, que vos preste

faça-vos mui bom proveito

que eu por fugir-vos co’o corpo

folgo de ser alma há tempos

      Agora somente o que,

como sufrágio, vos peço

é um leque para a calma

e para o suor, um lenço.

      Vós viveis junto de um rio

que me remedieis, espero

de um sentimento galhardo

com um carinho aguadeiro

      Depois de purgado como

sou um espírito esqueleto

pois tendes o céu nos olhos

virei a ser novo argueiro

      Isto digo e como uma alma

num instante desapareço

e para o pé de uma cruz

vou penar num azulejo.

Romance Jocoso inédito – Epístola em redondilha maior e rima branca, manuscrito de meados do século XVII (1641?), assinado/atribuído a um Frei Lucas? – COD. 9241 da Biblioteca Nacional de ­Lisboa.

*tortolilhada – pode ser “zarolha” ou “bêbeda”

Sobre a pintura – MatrizNet

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