‘Relógio…’ Mário Cesariny, óleo sobre tela (48,26×35,56 cms.)

Ah, abram-me outra realidade!

Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos

E ter visões por almoço.

Quero encontrar as fadas na rua!

Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,

Desta civilização feita com pregos.

Quero viver como uma bandeira à brisa,

Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram.

Meu coração verdadeiro continuará velando

Pano brasonado a esfinges

No alto do mastro das visões

Aos quatro ventos do Mistério.

O Norte — o que todos querem

O Sul — o que todos desejam

O Este — de onde tudo vem

O Oeste — aonde tudo finda

— Os quatro ventos do místico ar da civilização

— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo

4-4-1929 – Álvaro de Campos – Livro de Versos. Fernando Pessoa. Lisboa: Estampa, 1993, pp. 99

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