Há mais de meio século que ando a queimar pestanas à conta da narrativa. A ler as propriamente ditas e o que sobre elas se vai escrevendo; a fazer-lhes propaganda como crítica, a tentar ensinar a lê-las como professora. E agora, pegou a moda de usar o termo a torto e a direito. Ficou «in», mas está a ser errada e perigosamente banalizado.
No esqueleto, narrativa é a associação de duas frases que, mesmo desarticuladas, constroem uma estória. É uma função vital – o homem não pode não narrar. Antes de entrar no espaço lúdico, permite que consolidemos o nosso «eu», edifiquemos o nosso romance individual. A bibliografia seria longa e fastidiosa, mas posso resumir: uma narrativa NÃO é uma «aldrabice», não é sinónimo de MENTIRA (não me ofendam a Literatura), não substitui a notícia, não pode ser usada para, pela insistência, fabricar um falso sentido de realidade. Fala-se agora em «narrativa» da oposição, mas principalmente da «narrativa» do governo. A última tem a ver com a tentativa de tapar o enoooooorme buraco orçamental, já antigo, com a recente decisão do Tribunal Constitucional; justificar, com motivação mais fresca, uma já antiga política de cortes – sobre os velhos e os doentes.
É pela narrativa que estruturamos o nosso sentido de realidade. O ser humano também não suporta o fragmentário, pelo que quando a estória não coincide com os factos, ou fica esquizofrénico (não consegue decidir-se qual a narrativa a escolher), ou entra em descrença total (passa a acreditar, apenas e só, na sua própria narrativa) – o processo deste último caso é desmontado numa velha história infantil, «Pedro e o Lobo». Prefiro a  variante de Disney, com música de Prokofiev (1946) e locução de Eunice Muñoz (2 partes):