Ovelha DollyFaz 15 anos que nasceu a ovelha Dolly – o primeiro mamífero a ser clonado – hoje empalhada no National Museum of Scotland. De quando em vez vêm ao de cima as questões éticas sobre a clonagem de animais – e pouco ou nada se fala de humanos.
Mas, à revelia de leis e discussões, há quem apregoe estar a fazer clonagem humana desde 2001. Recupero aqui um artigo publicado no Expresso em 2003 – agora com hiperligações – que ainda não perdeu actualidade.

«Clonagem, caldeiradas e imortalidade – Imagine-se o clone de Ramses II a assistir a um concerto de Elvis Presley

Yes to Human Cloning – Immortality thanks to Science (Sim à Clonagem Humana: a Imortalidade Graças à Ciência, Tagman Press, 2001) é a «Bíblia» de Raël, aliás Claude Vorilhon, o profeta da clonagem, que neste momento tem o mérito de ter posto de acordo os principais líderes políticos e religiosos do planeta. O livro foi escrito em francês (Edições Quebecor, Janeiro de 2001), uma edição «definitivamente indisponível». A versão inglesa, publicada em Junho de 2001, só se encontra via amazon.co.uk, ou pela página da própria Clonaid – www.clonaid.com.
Raël   Aparece com vários anexos. Uma Declaração em Defesa da Clonagem, o Discurso de Rael ao Congresso Americano, além de quatro prefácios: do autor, de Brigitte Boisselier (Ph.D em Bioquímica), do tradutor, Marcus Wenner, (Ph.D. em Psiconeuroimunologia), e de Daniel Chabot (Ph.D. em Psicologia). Tantos doutoramentos pretendem, evidentemente, dar credibilidade científica ao tratado.     Qualquer dos prefácios confirma a caldeirada ideológica que caracteriza todo o texto: mistura-se religião, psicologismos, mitos e ciência, tudo argumentado com uma lógica aparentemente à prova de bala para defender a imortalidade humana oferecida pela clonagem. Um livro que seria mais um guião para um filme de ficção científica, um inócuo e redundante chorrilho de clichés, não fosse Raël o fundador da empresa que alega ter clonado os primeiros seres humanos.
Claude (Vorilhon) Raël é um ex-jornalista que em 1973 e 1975 teve encontros imediatos de 3º e 4º. Grau. No primeiro, os extra-terrestres revelaram-lhe que eram os Elohim da Bíblia, e que tinham sido eles os fabricantes genéticos da espécie humana (uma hipótese já aventada por L. Powells em O Despertar dos Mágicos, p.ex.); no segundo, visita o planeta dos Elohim que, além de lhe explicarem como «usaram a clonagem para ressuscitar Jesus…» (pág. 87), lhe demonstram como fazer clonagens de crescimento acelerado.
Descobre que «Os nossos criadores mantiveram um registo nos seus computadores dos códigos genéticos (até aqui conhecidos como “almas”) de todo e cada ser humano que existiu desde a criação da humanidade./ O objectivo das nossas vidas na terra é permitir a selecção dos mais brilhantes, quer dizer os que usam as suas possibilidades ao máximo para o bem da humanidade.» (pág. 114).
Foi devido à primeira revelação que mudou de nome para fundar o Movimento Raëliano, uma seita que neste momento inclui uns 40.000 membros [agora com plataforma própria]. E por causa do segundo que criou a Clonaid (como explica no cap. 8), a empresa que afirma ter clonado dois bebés: uma irónica «Eva», nascida a seguir ao dia de Natal; e uma outra menina anónima, parida por um casal de lésbicas dia 4 na Bélgica, que segundo ele serão «bebés normais e perfeitos».

   O próximo objectivo de Raël – a ser posto em prática pela Clonaid – é acelerar o crescimento dos clones de modo a que atinjam rapidamente a idade adulta para, em seguida, cada «pai/mãe» poder transferir as suas experiências e memórias para o novo corpo fresquinho e sem maleitas: «Tornar-se-ão de imediato o equivalente de uma pessoa com 15 a 17 anos de idade, quando as capacidades físicas estão ao máximo./ Estes clones são apenas cópias físicas. Como o “hardware” do computador ou uma cassete virgem, não têm memória. (…) O terceiro estádio exige uma tecnologia já em progresso no Japão que nos permitirá fazer o “download” da memória e personalidade humanas para um computador.» (pág.36).
   Parece que é assim que se reproduzem eternamente os eternamente jovens Elohim. Um processo que procura traduzir em termos científicos as teorias sobre a reencarnação. Só que aqui a alma já não bebe as águas do rio do esquecimento antes de regressar: o «ser» é apenas «software» eternamente disponível para «up-grade» e «download».
  Desta primeira parte da caldeirada há a salientar que, ao invocar apenas os Elohim, Raël rasura todas as outras mitologias cosmogónicas centrando-se unicamente na tradição judaico-cristã. Depois, se os bebés clones são «normais e perfeitos», terão as suas emoções e memória próprias, mesmo se manipulados para um «crescimento rápido». Nestas condições, e trazendo já o seu próprio ADN, mesmo se apenas réplica, não se entende como podem ser ulteriormente transformados em meros depósitos da sabedoria parental.
   Seguidamente há o problema das transferências. Quando se introduzem dados nos computadores mais avançados – a funcionar com «redes neuronais» e «programação genética» – não se sabe bem, depois de tratados pela máquina, que quantidade ou tipo de conhecimentos passam a existir no seu interior, (para não falar da dificuldade de recuperação dessas informações). Será bem mais difícil controlar o processo em termos humanos, sabendo que o cérebro possui uns largos biliões de neurónios, e que as funções da memória estão distribuídas e dispersas por várias zonas. Depois, sabe-se que, mesmo herdando o grau máximo de genes, nem os próprios gémeos idênticos são iguais (e nos filmes, os clones acabam sempre por se revoltar contra os seus pigmaliões…).
   Raël não explica como se processa a «passagem»: quem carrega no «botão» para mudar o «eu» de um corpo para outro, ou para a máquina; o que acontece ao corpo «velho».
   Fala de duas «castas» que se excluem: os que desejam reproduzir-se e morrer, os que desejam clonar-se e ser eternos.
   Mas abre uma excepção «De um qualquer modo, o número de crianças nesta sociedade futura será limitado, uma vez que cada pessoa terá que escolher entre ter a sua vida prolongada ou ter filhos, para evitar o excesso de população. As pessoas que se reproduzem terão que aceitar o tempo de vida mortal, a não ser que sejam isentas por um comité especial que decidirá, num “Julgamento Final” quem, dependendo das acções praticadas durante as suas vidas, terá direito ao privilégio de se tornar eterno./ O crime também desaparecerá quase completamente, o que tornará as prisões redundantes. Isto será possível pela identificação e correcção dos erros genéticos que resultam em comportamento violento e anti-social, desenvolvendo-se então uma educação com base na não violência e respeito pelos outros, e finalmente pela eliminação da pobreza e desigualdade social.» (pág.74).
   Elucubra demoradamente sobre os benefícios do Novo Homem num Mundo Novo gerido pela Inteligência Artificial e Nanotecnologia: uma sociedade de puros ócio e gozo, onde: «o aparecimento eminente de drogas electrónicas permitirá às pessoas experimentar prazeres inimagináveis sem os problemas de saúde que causam as drogas químicas.» (pág. 73).
   A imortalidade não será fonte de aborrecimento, porque haverá milhões de pessoas no mundo para conversarem com qualquer eterno clonado. E no que respeita às relações mais íntimas há sempre a possibilidade de eternos divórcios: «… imaginem o que será quando vivermos 900 anos… e eventualmente para sempre. É por isso que, à parte as excepções maravilhosas em que alguns casais viverão verdadeira e eternamente juntos, a grande maioria das pessoas terá um número infinito de parceiros com os quais viverá durante variados períodos de tempo.» (pág.131).
   Neste mundo sem dinheiro, sem estatuto social, dominado pela preguiça (a mãe da criatividade), tudo é clonado e reciclado, desde a comida aos animais de estimação: «Recentemente os cientistas criaram um coelho luminoso adicionando alguns genes de uma anémona luzente ao do roedor./ Quando este coelho é exposto à luz ultra-violeta, torna-se fluorescente. Isto garante que se venha a tornar muito popular como animal de estimação para as crianças.» (pág. 59). Não nos esqueçamos que os cães de raça são resultado de uma selecção genética «parecida».
   Pois é deste modo que vivem os Elohim: «teremos que encontrar uma maneira de forma a que cada ser humano tenha direito a receber um ordenado mínimo para se lhe permitir viver decentemente e com os prazeres básicos todas as suas vidas, do nascimento à morte (se morrerem!). Isto teria que incluir pelo menos o suficiente para pagar a habitação, comida, roupas, e divertimentos./ Uma vez que todo o trabalho é finalmente levado a cabo por nanobots, computadores e outros computadores biológicos, esta então será a maior libertação na história da humanidade.» (pág. 71).
   O segundo e mais grave problema desta caldeirada é que Raël não distingue os vários tipos de clonagem, misturando as tentativas de recuperação de animais extintos e as culturas para alimentação, confundindo premeditadamente a clonagem humana com a clonagem terapêutica (o uso de células embrionárias para tratamento de queimaduras, doenças esclerosantes, algumas espécies de cancro) levando à condenação geral de uma técnica que pode vir a ser de facto uma revolução na medicina. E dilui ainda as diferenças entre clonagem e fecundação «in-vitro», equiparando o bebé-clone ao bebé-proveta: «Se tudo correr bem, no final do ano de 2001, ou princípios de 2002 no máximo, todos os ecrãs de televisão do mundo estarão a mostrar uma família feliz com um bebe excepcionalmente sorridente, o primeiro bebé humano clonado. A opinião pública do mundo ficará imediatamente a seu favor, como foi o caso de Louise Brown, a primeira bebé-proveta, que baniu os fantasmas do monstro de Frankenstein que toda a gente temia tanto.» (pág. 92).
   É o elogio deste Mundo Novo que vamos encontrar nos prefácios. Boisselier defende a sua teoria do evolucionismo científico partindo da ovelha Dolly como exemplo de clonagem do primeiro mamífero (e sem referir os problemas decorrentes de envelhecimento precoce da dita). Lista todas as impossibilidades científicas posteriormente ultrapassadas pela própria ciência – da velocidade da luz à teoria da relatividade – para dizer: «O processo de envelhecimento será um dia uma história do passado e a morte será uma opção oposta a um fim inevitável – e estou confiante que os humanos irão gerir esta mudança não optando pela condenação. Hoje recebi um telefonema de um casal que tinha perdido uma criança num acidente, e porei toda a minha energia para permitir que este código genético se venha a exprimir.» (pág.19). O pormenor é que re-exprimir este código genético custa apenas $200.000 dólares.
   Marcus Wenner abre dizendo: «A humanidade está à entrada do Paraíso», e pega num problema já focado por Raël – a velha relação entre natureza e cultura – como a grande motivação evolucionária que, curiosamente, é a parte que não pode ser geneticamente controlada: «… somos todos produtos da nossa educação e para a maioria de nós, a nossa educação foi feita no passado, por isso somos pedaços do passado tentando encontrar o nosso caminho no futuro.» (pág. 21). Raël dizia: «as nossas crianças, que têm vindo a brincar com os computadores desde os cinco ou seis anos, não têm exactamente o mesmo cérebro que aqueles que brincaram com brinquedos de madeira ou metal, cujos cérebros estão naturalmente e por comparação atrofiados.» (pág.10). Vão clonar cérebros atrofiados? Ou atrofiar cérebros mais evoluídos com as memórias obsoletas nascidas da madeira, do metal, do plástico?
   Entra depois em frenesi: «Estamos a viver o sonho de tantos revolucionários, hereges, marginais, qualquer que tenha sido o rótulo que lhes foi dado por estarem à frente do seu tempo, e devemos-lhes a eles correr a volta final. De outro modo o sofrimento deles foi um desperdício. E quem sabe, podemos até decidir trazer de volta à vida de novo alguma dessas pessoas cujas existências foram dedicadas ao progresso, quando a tecnologia estiver afinada, de modo a que possam gozar uma vida além da vida no céu, apesar de tudo! Mas isso seria outra história…» (pág. 24). Uma hipótese que nos permite imaginar o clone de Ramsés II a assistir a um concerto de Elvis Presley, ou um Shakespeare contrariado por ter que aturar Ben Jonson outra vez.
   O elogio da clonagem, a permitir um universo de lazer contínuo, em que robots servem comida artificial de borla, continua campo adentro das áreas da Inteligência Artificial: «poderia passar o dia a ouvir música ou estudar química, a fazer o “upgrade” da memória com um “chip” de informação interactivo, fazer com que no corpo lhe crescessem asas apenas pela beleza delas, programar árvores para se transformarem em casas (…) As possibilidades abertas pela interacção da biomatéria inteligente com os nossos próprios cérebros são ilimitadas.» (pág.25). Um mundo povoado de bons selvagens, a cultivarem a criança interior: «quando o dinheiro se torna redundante, aprenderemos a conquistar o nosso valor pessoal a partir de metas pessoais tais como produzir peças de teatro, música, ou qualquer coisa que dê prazer aos outros.» (pág. 26). O Novo Homem a habitar a tão almejada Idade de Ouro.
   Daniel Chabot, inspirado pela chegada do homem à Lua, data de Julho de 1969 o início da nova era tecnológica, o contexto da revolução biológica, para afirmar que ser contra ou a favor da clonagem humana é irrelevante: os debates de opinião pública, as leis, nunca fizeram parar o avanço científico e tecnológico.»
Helena Barbas – Expresso 2003

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