(na gaveta)

Camões – o Lusitano liso

Luis de Camões - Fernão Gomes

Corre por aí este retrato de Camões (1524-1580), atribuído a Fernão Gomes, como o «mais autêntico» e «ainda pintado em vida». Mas no texto abaixo, uma sátira de André Falcão de Resende (1527-1599) o poeta aparece «sem bigodes» e nuns tempos mui parecidos com os nossos.

Satira segunda a Luis de Camões. Repreende aos que, desprezando os doutos, gastam o seu com truães
[…]
Esta é, Camões, que quem escreve ou fala
Em numeroso verso, ou segue e usa
A poética prosa e quer orná-la:

E o natural engenho aplica à musa,
Alguma hora do pó se levantando,
Logo algum espírito vil o nota e acusa.

«Vedes o triste (diz aos de seu bando)
Que é bacharel latino, e nada presta,
Poeta o coitado é, monstro nefando.

Na noite, que mal dorme, ou ardente sesta,
Compõem sonetos por seu passatempo
E sua pequice em versos manifesta.

Melhor lhe fora aproveitar o tempo
Em chatinar fazenda, em conta, em caixa,
Andar trás o dinheiro, andar com o tempo.

Gostar mil iguarias, vestir racha,
Cheirar, jogar, folgar, seguir pagodes,
Que mal comer, vestir sempre por taxa.

Anda como capucho sem bigodes,
Veste-se sem perfumes, sem abanos,
De picote e lã vil mais que a de bodes.

Todo o mundo ri dele, e em seus enganos
Ele só ri do mundo, canta e chora
Gastando parvoamente a idade e os anos.
[…]
Anda o pobre Poeta um doido feito
Mendicando comer e os consoantes,
Compondo seus versos sem proveito.
[…]
Oh la curiosidad del Eloquente
Grão poeta, gramático, facundo,
Faminto, pobre, e nu, pique no dente.

Como? E tal trato é este? Ora no mundo
(Dizem dos ganhos dele os onzeneiros)
Ser chocarreiro é ganho tão profundo?
[…]
Vamos provar no paço nossa sorte
A bel prazer, a bom prato, e bom sayo,
Rindo e folgando e não chorando a morte.

Em murmurar façamos grande ensaio,
Comer, beber a pasto sem fastio,
Palrar mais que em taberna papagaio

Coitado, és tu cristão? Ou Epicuro?
Ainda assim te mostra em seu Y grego
Pitágoras caminho mais seguro.

Mas tu foges da luz como morcego,
Torces a vista ao sol com a oftalmia,
E em trevas buscas sempre o vão sossego.
[…]
E que em tempos dourados isto fosse
Mais prezado que agora, e mais validos
os poetas e tidos noutra posse;

Os prémios da virtude merecidos,
ainda que os maus lhe chamem disparates,
nunca de todo podem ser perdidos.

Dão bárbaros cada hora mil combates
Aos doutos, e a ferro e fogo os seguem:
Não os socorre Augusto ou Mecenates.
[…]
Camões bem te confesso e bem conheço
Que entre o joio infeliz e a má zizania
De tanto mau costume em tempo avesso,

Engenhos nascem bons na Lusitânia,
E há cópia deles, que é menoscabada
Dos maus e nómada por insânia.

Por isso, como preso em tua pousada,
Solta este sonho, e esperta o adormecido
Tempo com uma voz bem entoada;

Qual ela é, clara e pura, em som devido
Decente, honesto e grave, até que chegue
Àquele afável, real ouvido.
[…]
Então teu celebrado e eficaz canto
Do estreito do mar roxo ao nosso estreito
Aos estranhos será piedade e espanto,
Se a ti e aos teus não for honra e proveito.

[in Obras de André Falcão de Resende, Edição crítica de Barbara Spaggiari, Edições Colibri, Lisboa, 2009, 2 vols., 589 e 626 págs.; Tomo I, pps. 354-362; actualização H. Barbas – re-publicação de 2013)

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