Fica aqui o «trailer» do filme Up in the Air (Amor sem escalas, 2009) de Jason Reitman com George Clooney, que parece ter inspirado o nosso Primeiro para a tirada profundamente filosófica da semana passada.
Mr. Bingham percebe que as pessoas desempregadas ou despedidas têm reacções estranhas. E se o desemprego é de facto uma oportunidade tão boa para mudar de vida, porque é que o Dr. Passos Coelho e os seus pares a estão a desperdiçar?
Filmes perigosos
Essência – dos Madredeus
Os MADREDEUS regressaram – ressuscitaram – este mês de Abril, com outra formação. Estão em tournée por essa Europa fora, e lançaram um disco novo que a todos aconselho vivamente – Essência. As letras antigas do Pedro Ayres de Magalhães, na voz pura e jovem da Beatriz Nunes a arcar com a herança forte de Teresa Salgueiro - são eternos (e tão Portugueses enfim! – haja alguém).
Aqui – uma explicação mais longa das alterações e crescimentos – BEM HAJAM
Abril não desarma
Há também um Manifesto - ver versão integral - que termina assim:
Neste momento difícil para Portugal, queremos, pois:
1. Reafirmar a nossa convicção quanto à vitória futura, mesmo que sofrida, dos valores de Abril no quadro de uma alternativa política, económica, social e cultural que corresponda aos anseios profundos do Povo português e à consolidação e perenidade da Pátria portuguesa.
2. Apelar ao Povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia.
Viva Portugal!
Lisboa, 23 de Abril de 2012
Hino de Maria da Fonte
Terá começado em Março, mas atribuiu-se o dia 15 de Abril à Revolução de Maria da Fonte em 1846. Fica aqui o hino – por Vitorino – e a versão original da letra:
Viva a Maria da Fonte
Com as pistolas na mão
Para matar os cabrais
Que são falsos à nação
Refrão (2x)
É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer
Viva a Maria da Fonte
A cavalo e sem cair
Com as pistolas à cinta
A tocar a reunir
Refrão
Lá raiou a liberdade
Que a nação há-de aditar
Glória ao Minho que primeiro
O seu grito fez soar
Refrão
Sobre esta história (premediatamente ?) muito mal contada há uma bibliografia bastante completa fornecida pela Universidade do Minho/Biblioteca Pública de Braga – aqui. Dela, pode ler-se on-line a versão de Camilo Castelo Branco – aqui
O Vampiro Estrangeiro de Gomes Leal
Em 1897 escreve Gomes Leal um romance/carta em verso ao Rei D. Carlos – chama-lhe O Estrangeiro Vampiro - e reza em parte assim:
[... pág.8]
E então chamou-me alguém: – «Poeta dos Vencidos!
faze-te a língua e a voz dos ais e dos gemidos
dos nossos corações! – Alça uns amargos cantos
cheios de ódio ao Opressor!… Fala por nossos prantos!»
E então eu aceitando o dever duro e ingrato,
alcei o canto amargo… e disse intemerato:
«Ricos e maiorais deste país à beira
de um precipício a pique, a galgar a ladeira
da falência e a ruína, após cerrado o cofre
da Usura e da Onzena, olhai: – O povo sofre!
[... p. 10]
Mas ora então sabei – ricos e altos senhores
e Estrangeiros brutos… nossos vis opressores!
que nos estrangulais com a garra usuraria
que enquanto saboreais a sopa extraordinária
talvez de Vanderbilt… nossas mulheres e filhos
transam mil privações da miséria nos trilhos:
Que muitos largam a pátria e passam montes e rios,
Por não ter capitais com que arar os baldios:
Que muitos burgos há de entes sórdidos, nús
Onde nunca há brazido e comem peixes crús;
Há outros que, inda mais rotos, nús infelizes,
Pastam como animais, comem ervas, raízes!…
[... p.13]
Ora a um povo que tem oito séculos na História,
e feitos que jamais varrerão da memória
Homens de esforço, a nós, que expulsámos do solo
ao Espanhol, ao Saxão, rasgando o nosso colo,
ao Gaulês opressor, ao Bretão insolente,
e a Junot, o terror dos esquadrões, e ao ingente
Napoleão, ao qual nós servimos de escolho,
- que fizémos recuar e encrespar o sobrolho…
Agora a nós, Senhor, dos valentes o assombro,
pretendem os chatins… que na miséria e escombro
de todos os troféus e aspirações honestas,
dobremos a cerviz e curvemos as testas,
vencidos sem combate e sem alçar a espada,
de joelhos no chão, a cabeça rapada
como vencido hebreu às épocas remotas,
- a um bando charro e vil de onzeneiros* e agiotas!…
Esta acessível on-line, na Biblioteca de Fernando Pessoa – http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/8-309/2/8-309_master/8-309_PDF/8-309_0000_1-67_t24-C-R0150.pdf
* – pequena actualização politicamente mais correcta.
Transformismo
(a Carlos Tavares)
Ó sabios, ó intrépidos coveiros,
Que andais cavando o pó da antiguidade,
E descobris, atléticos mineiros,
Os filões escondidos da verdade,
Vós, que passastes séculos inteiros
A procurar os pais da Humanidade,
E, colhendo os vestígios derradeiros,
Arrancastes o mundo à Divindade,
Vós c’o frio escalpelo da razão
Viestes despedaçar-me o coração
Da minha infância as ilusões, a fé;
E levastes-me a crer, cheio de dor,
Que o formoso ideal do meu amor
Era a neta gentil d’um chimpanzé.
Cyrillo Machado – Lisboa, 1880
E outra vez o M.N.A. …
Como este Governo também não tem nada que fazer, e os cofres continuam cheios, lá andam outra vez preocupados com o Director do Museu Nacional de Arqueologia (entre outros). Em Março de 2010 queriam mudar o MNA para a Cordoaria – e lá «bloguei» a resmungar como mera cidadã interessada. Desconfio das mudanças – «entre o que se parte, o que se perde e o que desaparece…» – lá se vai evaporando o património.
Ao tempo era mera simpatizante, mas a cena suscitou-me a curiosidade. Agora lá ando pela biblioteca a investigar - resultados perversos da publicidade decerto. Sorte minha que descobri um oásis. Posso puxar dos galões – já corri muitas das bibliotecas por essa Europa fora; tive o privilégio de passar umas semanas na do Vaticano, e até deu para espreitar o Archivio Secreto. Isto para dizer que em nenhum desses lugares me deram as condições – e a simpatia gratuita – que tenho recebido no M.N.A. Um enorme obrigado à Maria do Carmo, ao Dr. Luis Raposo e, como diria o outro, «deixem-nos lá trabalhar, pá!»
O AO90 – à espera do fa(c)to consumado
Hoje deu-me para isto – ir ao portal da Assembleia da República consultar a legislação a favor e as petições contra o Acordo Ortográfico. Queria saber quem andava a «mandar» no Acordo.
Da anterior legislatura surge-me sempre o deputado Feliciano Barreiras Duarte, um homem do Bombarral, à cabeça das instruções para arquivar os processos (495/X/3 e 511/X/3). Aparece-nos na net/AR e facebook como «consultor jurídico» e «professor universitário». Na Lusófona, tem uma Licenciatura em Direito, pela Universidade Autónoma (1997). As outras inteligências de quem dependem as decisões, nesta legislatura (XII) serão, além de Nuno Crato, Francisco José Viegas e o próprio Primeiro Ministro. Sobre o Acordo, numa entrevista à Única (3.Set.2011), pronuncia-se o Matemático Nuno Crato: «É um facto. Como disse, salvo erro, o Ministro dos negócios Estrangeiros, neste momento não é uma questão de opinião.». Um facto com «c», que poderia ter deixado algumas expectativas além do esforço visível de passar pelo intervalo da chuva, e sacudir a dita do capote. Os salpicos terão caído na gabardine «double-face» do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. Este, enquanto director de O Independente (1988-1995), apoiou todas as campanhas nele feitas contra as tentativas de implantação do Acordo; surge agora (como Sócrates, José António Pinto Ribeiro e Gabriela Canavilhas) a considerar a língua portuguesa como uma «commodity» e factor de união com o Brasil.
As próximas petições irão provavelmente parar às mãos de Francisco José Viegas, licenciado em Estudos Portugueses e que se apresenta como editor de profissão. O que disser será ratificado pelo seu superior hierárquico, Pedro Passos Coelho, ele próprio semi-licenciado em matemática, e com o grau completo em Economia pela Universidade Lusíada (2001).
No texto do acordo propriamente dito, as regras são agora ditadas por um portal da Língua Portuguesa – em particular um grupo de investigação do ILTEC - Léxico e Modelização Computacional – financiado pela FCT, chefiado pela Professora Margarita Correia, portuguesa de origem Venezuelana, com doutoramento em Letras e Linguística. Será a alternativa encontrada ao que a lei do dito AO90 exige: «a publicação de um Vocabulário Ortográfico Unificado da Língua Portuguesa, elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras, com a colaboração das competentes instituições dos países-parceiros do Acordo, o qual constituirá um instrumento de consulta e de resolução de dúvidas, que a aplicação de qualquer Acordo sempre levanta.» (aqui o historial todo para quem tiver paciência). Também dos países-parceiros Angola e Moçambique ainda não o ratificaram.
Espera-se pois que o Acordo acabe em facto consumado, à patada, sem os instrumentos considerados necessários até pelos «acordistas» – caminhando a asneira incólume às opiniões dos grandes especialistas da nossa língua (portugueses e brasileiros), de relatórios académicos sérios e bem fundamentados, de multiplas petições com muitas mil assinaturas.
Parafraseando o linguista António Emiliano e o abaixo o cineasta e autor António de Macedo – a quem anda a aproveitar o crime?
E mais ainda o (des)Acordo pouco ortográfico
Deixo aqui um e-mail recebido do cineasta escritor e amigo António de Macedo – sempre lúcido e brilhante:
Prezad@s Amig@s,
Não sei qual é a vossa posição quanto ao chamado novo Acordo ortográfico, mas, em qualquer dos casos, penso que vos será útil terem conhecimento das informações que reproduzo a seguir.
Pessoalmente sou visceralmente contra, até por consideração para com os nossos irmãos brasileiros, que certamente poderão ficar desorientados com incongruências como esta: pelo novo Acordo (AO90) eles continuam a escrever, por exemplo, “percepção” e “receptivo”, mas em português de Portugal, teremos de passar a escrever “perceção” e “recetivo”. Estou mesmo a ver um brasileiro culto, habituada à visualidade gráfica de ”percepção” e “receptivo” (e continunando a mantê-la), a hesitar durante uns segundos para descodificar o que significarão formas tão aberrantes como “perceção” e “recetivo”…
Aqui vai o que apurei:
1 – A nova ortografia, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), foi promulgada pela Resolução da Assembleia da República (AR) n.º 26/91, de 23 de Agosto (com pequenas actualizações posteriores), e pormenorizada pela Resolução do Conselho de Ministros (CM) n.º 8/2011.
2 – A ortografia ainda em vigor, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1945 (AO45), foi promulgada pelo Decreto n.º 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, e ratificada em 1973, com pequenas alterações, pelo Decreto-Lei n.º 32/73 de 6 de Fevereiro.
3 – O Código do Direito de Autor e Direitos Conexos foi promulgado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março (com pequenas actualizações posteriores).
4 – Na hierarquia legislativa um Decreto-Lei está acima duma Resolução da AR ou do CM. Um Decreto-Lei é vinculativo, ao passo que uma Resolução é uma mera recomendação.
5 – Por conseguinte, uma Resolução não tem força legal para revogar um Decreto-Lei, e por isso o AO45 continua em vigor.
6 – Em caso de conflito entre a nova ortografia e o Direito do Autor, o que prevalece é o Decreto-Lei do Direito de Autor.
7 – Em consequência, nenhum editor é obrigado a editar os seus livros ou as suas publicações segundo a nova ortografia, nem nenhum Autor é obrigado a escrever os seus textos segundo o AO90. Mais ainda: tentar impor a nova ortografia do AO90 é um acto ilegal, porque o que continua legalmente em vigor é o AO45.
8 – Ao abrigo do Código do Direito de Autor, os Autores têm o direito de preservar a sua própria opção ortográfica, conforme consta do n.º 1 do Art. 56.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, onde se diz que o autor goza durante toda a vida do direito de assegurar a genuinidade e integridade da sua obra, opondo-se à sua destruição, a toda e qualquer mutilação, deformação ou outra modificação da mesma, e, de um modo geral, a todo e qualquer acto que a desvirtue.
9 – Embora no Artigo 93.º do mesmo Código do Direito de Autor se preveja a possibilidade de actualizações ortográficas, que não são consideradas “modificações”, há sempre a opção legítima, por parte do Autor, de escrever como entender, por uma “opção ortográfica de carácter estético”. O que aliás foi confirmado pelo Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, em entrevista à SIC no dia 8 de Janeiro de 2012, onde ele afirmou publicamente que até 2015 há um período de adaptação (e de eventuais reformulações do AO90, segundo disse) em que é permitido o uso paralelo do AO45 e do AO90, mas que aos Escritores, dada a sua condição de artistas criadores, ser-lhes-á sempre permitido utilizar a grafia que entenderem, mesmo que em 2015 o novo AO90 venha a ser eventualmente consagrado por Decreto-Lei, e não apenas, como agora, por uma simples Resolução da AR.
Para terminar, e entre parênteses, o novo AO90 é tão abstruso que é um verdadeiro crime, que está a ser imposto em vários meios de comunicação e em todos os departamentos governamentais, não obstante ser ilegal e incluso antidemocrático - e antidemocrático porque as várias sondagens que têm sido feitas desde há vários anos sempre apontaram para uma média de rejeição, do AO90, por cerca de 67 por cento da generalidade dos Portugueses – além de ter recebido, ao longo deste últimos anos, nove pareceres negativos emitidos por várias instituições, como por exemplo o Departamento de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa, a Comissão Nacional da Língua Portuguesa, a Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário, a Associação Portuguesa de Linguística e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros
Claro que um crime desta envergadura só pode estar a ser tão violentamente implementado porque tem atrás de si interesses muito pesados e muito poderosos, e apetece-nos perguntar como nos romances policiais: a quem aproveita o crime? Geralmente, em crimes desta envergadura, a resposta costuma ser: follow the money…
Dei um modesto contributo para tentar explicar a minha posição sobre o assunto neste link: http://ilcao.cedilha.net/?p=3854
Um grande abraço
António de Macedo

