Dia da Espiga

Espiga

Era hoje o dia de ir de manhã pelos campos apanhar cereais e flores para fazer o ramo da espiga. É decerto uma celebração pagã, das gentes do Sul e do Sol, cristianizada, que continua a cheirar ao enxofre das Maias. É o Dia da Hora, o mais santo do ano, em que o tempo pára do meio-dia à uma: «as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam» pelo que se suspendem também todos os trabalhos humanos,  diz-nos Ernesto Veiga de Oliveira. O ramo composto por malmequeres, papoilas, trigo, cevada e outras ervas, era lá em casa  (mesmo na cidade) amarrado com um fio de lã vermelha e pendurado atrás da porta da cozinha. Um seguro contra a falta de pão que ficava a secar até ser substituído pelo ramo do ano seguinte.

 

Querida Troika

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Querida Troika
Resolvi também escrever-vos uma carta para não ficar mal vista. Já andam por aí
há quase dois anos e continuam tão amarelinhos! Se encontrassem alguma na Baixa,
aconselhava-vos que na próxima fossem morfar as vossas sandes para uma
esplanada – cá a malta já seguiu o bom exemplo e vai (bronzeadíssima, é certo) de
marmita pró trabalho. Os que têm a imensa sorte de ainda ter emprego, porque os
outros já andam a trabalhar pró bronze a tempo inteiro.

Também vos queria agradecer as transformações sociais. Fui ontem à noite
passear – não pela Quinta-Avenida – mas pela Décima-Avenida-Mais-Cara-do-Mundo
(cá a gente não brinca em serviço) e fiquei muito contente porque algumas das
arcadas são multi-funções e, as escadas que de dia dão acesso à Haute-Couture, de
noite são convertidas em T3 para os sem abrigo. Tal e qual havia em Londres, no
tempo da Tatcher – estamos mesmo a evoluir graças a Santo Onofre!

Hoje o nosso primeiro ministro veio-nos dar o vosso recado sobre o resto dos cortes
que ainda acham que há para fazer. Faz tudo sentido. Como são muitos os desempregados
(de que nem falou), e muitos os funcionários públicos a mais, obrigam-se os
segundos a trabalhar mais horas – para acabar com os primeiros? Até fui buscar o
ábaco. Também achei bem que se cortasse ao calhas, assim uns trinta mil, mesmo
que os serviços que têm falta de gente ainda fiquem com menos – porque os que trabalham
também têm que ser castigados não vão os sornas ficar mal vistos.

Já agora, parece que anda tudo outra vez à procura do consenso. Juro que já vasculhei os armários todos cá de casa e não apareceu. Quando o encontrar mando.
Por tudo isto, não estranhem que vos deseje boa viagem – só de ida. Podem aproveitar e
levar convosco o governo todo, assim numa mobilidade europeia. É que eles já se
esqueceram, mas também são funcionários públicos, e até não trabalham lá grande
coisa. Cada vez que fazem uma directa…, pelo que assim a gente
aproveitava para poupar uns trocos – nos ordenados deles, nas despesas de
representação, nas viagens e nas contas erradas. É certo que iam aumentar a emigração
dos quadros – mas a gente fica à espera deles prá reforma, quando vierem gastar
cá no ALL-garve as pensõesitas a que já têm direito (mesmo com cortes).  

Desta sempre vossa
 

a Narrativa

Há mais de meio século que ando a queimar pestanas à conta da narrativa. A ler as propriamente ditas e o que sobre elas se vai escrevendo; a fazer-lhes propaganda como crítica, a tentar ensinar a lê-las como professora. E agora, pegou a moda de usar o termo a torto e a direito. Ficou «in», mas está a ser errada e perigosamente banalizado.
No esqueleto, narrativa é a associação de duas frases que, mesmo desarticuladas, constroem uma estória. É uma função vital – o homem não pode não narrar. Antes de entrar no espaço lúdico, permite que consolidemos o nosso «eu», edifiquemos o nosso romance individual. A bibliografia seria longa e fastidiosa, mas posso resumir: uma narrativa NÃO é uma «aldrabice», não é sinónimo de MENTIRA (não me ofendam a Literatura), não substitui a notícia, não pode ser usada para, pela insistência, fabricar um falso sentido de realidade. Fala-se agora em «narrativa» da oposição, mas principalmente da «narrativa» do governo. A última tem a ver com a tentativa de tapar o enoooooorme buraco orçamental, já antigo, com a recente decisão do Tribunal Constitucional; justificar, com motivação mais fresca, uma já antiga política de cortes – sobre os velhos e os doentes.   
É pela narrativa que estruturamos o nosso sentido de realidade. O ser humano também não suporta o fragmentário, pelo que quando a estória não coincide com os factos, ou fica esquizofrénico (não consegue decidir-se qual a narrativa a escolher), ou entra em descrença total (passa a acreditar, apenas e só, na sua própria narrativa) – o processo deste último caso é desmontado numa velha história infantil, «Pedro e o Lobo». Prefiro a  variante de Disney, com música de Prokofiev (1946) e locução de Eunice Muñoz (2 partes):
 

O despacho de 8 de Abril

vitor-gaspar-tristes-memorias-de-um-futuro-perigoso

Se houvesse suspeitas de que este era um governo pouco democrático, a faceta salazarenta do despacho de Gaspar tirar-nos-ia as dúvidas. Há muitas diferenças. Em 31 de Julho de 1928 Salazar apresenta o primeiro orçamento 1928-29, realista, para tentar endireitar as finanças. E conseguiu. Vítor Gaspar há dois anos que não acerta um. Nunca votei em Salazar, mas também não votei em Vítor Gaspar, nem no programa da Troika corrigido e aumentado. Está a descobrir-se que não deveríamos ter entrado no Euro – na altura, foi José Sócrates quem se ‘esqueceu’ de fazer o referendo – estaria com medo, ou saberia pelas sondagens, que o resultado iria ser negativo, e decerto quis ficar bem na fotografia em Bruxelas. Não acreditou no bom-senso do povo – na democracia. Entrámos no Euro, e pusémo-nos a ‘gastar à parva’ dinheiro que não tínhamos – mas como não andámos a roubar, alguém nos deu acesso a ele. Agora estamos todos a ser tratados como ‘putos’ malcriados, que esbanjaram mais do que deviam – e o papá Vítor vem cortar a mesada. Instala-se assim uma ditadura financeira, a 8 de Abril de 2013.
Vítor Gaspar – como Passos Coelho e José Sócrates – não gostam de Portugal, nem dos portugueses. E trazem uma utopia qualquer dentro da cabeça, que querem instalar à força aqui no rectângulo. E, se acreditasse em teorias da conspiração, poderia pensar que este processo todo, desencadeado pela putativa decisão do Tribunal Constitucional, foi orquestrado (com conivência do Presidente da Républica) e calendarizado para a sétima avaliação para nos entalar de vez, para nos obrigar, enfim!, a ‘ser bem comportados’, por muitos anos.

Trovas muito antigas

Trovas Antigas Saudade LoucaTêm estado a re-passar na RTP 2 os seis episódios de «Trovas Antigas, Saudade Louca», o documentário realizado por Fernando Ávila que instituiu a candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, da responsabilidade da RTP e a EGEAC/Museu do Fado. Foi gizado por Rui Vieira Nery, com José Pracana, Sara Pereira e Carlos do Carmo que o apresenta. Um mergulho em 100 anos de memórias, enriquecido por filmes, gravações e testemunhos, ancorados numa sólida investigação histórica e cultural. Trata-se de um trabalho notável, cheio de momentos geniais, que seria muito importante divulgar mais lá por fora e tornar acessível cá por dentro – para quando um DVD?

Diplomas

Fake-College-University-Diploma-M

Será que o senhor Relvas faz a menor ideia do prejuízo – da machadada – que a notícia do desejo paroquiano de ser dr. desferiu na reputação das universidades portuguesas – todas? Na credibilidade dos cursos dos jovens que o (des)governo anda a mandar emigrar? E põe-se a hipótese de o sr. Relvas ainda ir para deputado. A questão não é apenas ética, é puro desleixo – porque há trabalhos à venda e não é crime – reza no Expresso – e até são baratos: uma monografia fica pelos € 200,00, uma tese de Mestrado chega aos € 1.500,00. O sr. Relvas podia ter telefonado à Carolina! Poderia também ter comprado logo um grau académico – até de doutoramento – um investimento um pouco mais caro, mas provavelmente aceitável para um ordenado de Ministro; ou escolher grau e diploma – aqui são realistas e estão em saldos a $ 150,00.