helena barbas

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O AO90 – à espera do fa(c)to consumado

Posted on 27/01/2012 by hbarbas
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Hoje deu-me para isto – ir ao portal da Assembleia da República consultar a legislação a favor e as petições contra o Acordo Ortográfico. Queria saber quem andava a «mandar» no Acordo.

Da anterior legislatura surge-me sempre o deputado Feliciano Barreiras Duarte, um homem do Bombarral, à cabeça das instruções para arquivar os processos (495/X/3 e 511/X/3). Aparecenos na net/AR e facebook como «consultor jurídico» e «professor universitário». Na Lusófona, tem uma Licenciatura em Direito, pela Universidade Autónoma (1997). As outras inteligências de quem dependem as decisões, nesta legislatura (XII) serão, além de Nuno Crato, Francisco José Viegas e o próprio Primeiro Ministro. Sobre o Acordo, numa entrevista à Única (3.Set.2011), pronuncia-se o Matemático Nuno Crato: «É um facto. Como disse, salvo erro, o Ministro dos negócios Estrangeiros, neste momento não é uma questão de opinião.». Um facto com «c», que poderia ter deixado algumas expectativas além do esforço visível de passar pelo intervalo da chuva, e sacudir a dita do capote.

As próximas petições irão provavelmente parar às mãos de Francisco José Viegas, licenciado em Estudos Portugueses e que se apresenta como editor de profissão. O que disser será ratificado pelo seu superior hierárquico, Pedro Passos Coelho, ele próprio semi-licenciado em matemática, e com o grau completo em Economia pela Universidade Lusíada (2001).

No texto do acordo propriamente dito, as regras são agora ditadas por um portal da Língua Portuguesa – em particular um grupo de investigação do ILTEC - Léxico e Modelização Computacional – financiado pela FCT, chefiado pela Professora Margarita Correia, portuguesa de origem Venezuelana, com doutoramento em Letras e Linguística. Será a alternativa encontrada ao que a lei do dito AO90 exige: «a publicação de um Vocabulário Ortográfico Unificado da Língua Portuguesa, elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras, com a colaboração das competentes instituições dos países-parceiros do Acordo, o qual constituirá um instrumento de consulta e de resolução de dúvidas, que a aplicação de qualquer Acordo sempre levanta.» (aqui o historial todo para quem tiver paciência). Também dos países-parceiros Angola e Moçambique ainda não o ratificaram.

Espera-se pois que o Acordo acabe em facto consumado, à patada, sem os instrumentos considerados necessários até pelos «acordistas» – caminhando a asneira incólume às opiniões dos grandes especialistas da nossa língua (portugueses e brasileiros), de relatórios académicos sérios e bem fundamentados, de multiplas petições com muitas mil assinaturas.

 

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    Categories: acordo ortográfico, do contra

    E mais ainda o (des)Acordo pouco ortográfico

    Posted on 27/01/2012 by hbarbas
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    Deixo aqui um e-mail recebido do cineasta escritor e amigo António de Macedo – sempre lúcido e brilhante:

    Prezad@s Amig@s,
    Não sei qual é a vossa posição quanto ao chamado novo Acordo ortográfico, mas, em qualquer dos casos, penso que vos será útil terem conhecimento das informações que reproduzo a seguir.
    Pessoalmente sou visceralmente contra, até por consideração para com os nossos irmãos brasileiros, que certamente poderão ficar desorientados com incongruências como esta: pelo novo Acordo (AO90) eles continuam a escrever, por exemplo, “percepção” e “receptivo”, mas em português de Portugal, teremos de passar a escrever “perceção” e “recetivo”. Estou mesmo a ver um brasileiro culto, habituada à visualidade gráfica de ”percepção” e “receptivo” (e continunando a mantê-la), a hesitar durante uns segundos para descodificar o que significarão formas tão aberrantes como “perceção” e “recetivo”…

    Aqui vai o que apurei:
    1 – A nova ortografia, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), foi promulgada pela Resolução da Assembleia da República (AR) n.º 26/91, de 23 de Agosto (com pequenas actualizações posteriores), e pormenorizada pela Resolução do Conselho de Ministros (CM) n.º 8/2011.
    2 – A ortografia ainda em vigor, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1945 (AO45), foi promulgada pelo Decreto n.º 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, e ratificada em 1973, com pequenas alterações, pelo Decreto-Lei n.º 32/73 de 6 de Fevereiro.
    3 – O Código do Direito de Autor e Direitos Conexos foi promulgado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março (com pequenas actualizações posteriores).
    4 – Na hierarquia legislativa um Decreto-Lei está acima duma Resolução da AR ou do CM. Um Decreto-Lei é vinculativo, ao passo que uma Resolução é uma mera recomendação.
    5 – Por conseguinte, uma Resolução não tem força legal para revogar um Decreto-Lei, e por isso o AO45 continua em vigor.
    6 – Em caso de conflito entre a nova ortografia e o Direito do Autor, o que prevalece é o Decreto-Lei do Direito de Autor.
    7 – Em consequência, nenhum editor é obrigado a editar os seus livros ou as suas publicações segundo a nova ortografia, nem nenhum Autor é obrigado a escrever os seus textos segundo o AO90. Mais ainda: tentar impor a nova ortografia do AO90 é um acto ilegal, porque o que continua legalmente em vigor é o AO45.
    8 – Ao abrigo do Código do Direito de Autor, os Autores têm o direito de preservar a sua própria opção ortográfica, conforme consta do n.º 1 do Art. 56.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, onde se diz que o autor goza durante toda a vida do direito de assegurar a genuinidade e integridade da sua obra, opondo-se à sua destruição, a toda e qualquer mutilação, deformação ou outra modificação da mesma, e, de um modo geral, a todo e qualquer acto que a desvirtue.
    9 – Embora no Artigo 93.º do mesmo Código do Direito de Autor se preveja a possibilidade de actualizações ortográficas, que não são consideradas “modificações”, há sempre a opção legítima, por parte do Autor, de escrever como entender, por uma “opção ortográfica de carácter estético”. O que aliás foi confirmado pelo Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, em entrevista à SIC no dia 8 de Janeiro de 2012, onde ele afirmou publicamente que até 2015 há um período de adaptação (e de eventuais reformulações do AO90, segundo disse) em que é permitido o uso paralelo do AO45 e do AO90, mas que aos Escritores, dada a sua condição de artistas criadores, ser-lhes-á sempre permitido utilizar a grafia que entenderem, mesmo que em 2015 o novo AO90 venha a ser eventualmente consagrado por Decreto-Lei, e não apenas, como agora, por uma simples Resolução da AR.

    Para terminar, e entre parênteses, o novo AO90 é tão abstruso que é um verdadeiro crime, que está a ser imposto em vários meios de comunicação e em todos os departamentos governamentais, não obstante ser ilegal e incluso antidemocrático - e antidemocrático porque as várias sondagens que têm sido feitas desde há vários anos sempre apontaram para uma média de rejeição, do AO90, por cerca de 67 por cento da generalidade dos Portugueses – além de ter recebido, ao longo deste últimos anos, nove pareceres negativos emitidos por várias instituições, como por exemplo o Departamento de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa, a Comissão Nacional da Língua Portuguesa, a Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário, a Associação Portuguesa de Linguística e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros
    Claro que um crime desta envergadura só pode estar a ser tão violentamente implementado porque tem atrás de si interesses muito pesados e muito poderosos, e apetece-nos perguntar como nos romances policiais: a quem aproveita o crime? Geralmente, em crimes desta envergadura, a resposta costuma ser: follow the money…
    Dei um modesto contributo para tentar explicar a minha posição sobre o assunto neste link: http://ilcao.cedilha.net/?p=3854
    Um grande abraço
    António de Macedo

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      Categories: acordo ortográfico, do contra

      Parar a SOPA

      Posted on 18/01/2012 by hbarbas
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      No mundo da Humanística Digital está a decorrer um protesto contra os projectos de legislação americanos que pretendem cercear as liberdades na Net. Vários cibernautas  – ACH, Wikipedia, Reddit, Boing Boing, MediaCommons, CUNY Academic Commons entre muitos outros – decretaram um «blackout» de 24 horas para hoje nos respectivos sites  - a espreitar aqui - http://ach.org/

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        Categories: do contra, SOPA

        A vida secreta dos gatos

        Posted on 09/12/2011 by hbarbas
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          Categories: (na gaveta), animação, cinema

          Jan Owen – «Ela coleccionava dicionários»

          Posted on 18/11/2011 by hbarbas
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          Ela coleccionava dicionários
          como outras mulheres coleccionam homens
          e os põem na prateleira:
          manuais, gramáticas, Aprenda Sozinho
          alemão, malaio, italiano, suaíli, galês,
          como uma paixão, por roupas a pendurar
          sem uso no escuro,
          por peridotos, granadas, ametistas, pérolas
          num estojo fechado, substantivos declinados.
          Cada palavra desconhecida brilhava com um fogo delicioso
          e as frases estranhas ensedavam-lhe a pele
          com seus géneros e conotações.

          Poderia ter sido a casa dos fundos
          na frente marítima em Macau
          acolhendo todos os marinheiros.
          Mas o desejo que muitas línguas
          lhe abrissem os lábios – si, igen, ja,
          ah oui, yes, sim -
          foi um sorriso de despedida,
          uma inclinação a favor do vento
          que varre uma centelha de luz
          através do mar e deixa um arrepio prateado
          no pescoço. Corre para esses livros
          a guardar a lareira,
          confortáveis ISBNs como um correr de dias;
          para o pão e a fruta, para o vinho espumante.

          Ofereceram-lhe um ciclamen com perfume
          um truque novo a casar a violeta com a rosa,
          como se uma flor ansiasse por cantar
          e o timbre rosa tremesse
          em palavras mais silenciosas.
          Ela tocou-lhe a polpa e soube
          que iria desaparecer como o discurso
          e não desapareceu.
          E no entanto não era linguagem o que procurava,
          nem a música de qualquer sentido.
          Uma fidelidade antiga fazia-a avançar
          para além dos fundamentos do pensamento
          e da ideia mesma do silêncio
          até à quinta temporada que iria enfim regressar
          com o seu clima de reconhecimento
          e as suas pontas soltas.

          [Trad. H.B. 18.Nov.2011]

          in Jan Owen (n.1945), “The Return: «She Collected Dictionaries»”, Poems 1980-2008. River Road Press/ John Leonard Press, 2008; aqui ou aqui

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            Categories: literatura, poesia, tradução

            «Inversos» de Ana Luisa Amaral

            Posted on 17/11/2011 by hbarbas
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            Ana Luisa Amaral agrega neste volume toda a sua poesia até 2010. Inclui o já publicado em Poesia Reunida (1990-2005); adiciona-lhe os livros posteriormente lançados – Entre dois Rios e Outras Noites (2007, grande prémio APE) e Se fosse um Intervalo (2009); e acrescenta-lhes mais de uma vintena de inéditos. O principal problema destas reedições e compilações é que, reunidos, os livros contaminam-se. Cada nova publicação infecta as antecedentes, enriquece a leitura dos versos, aumenta-lhes os sentidos possíveis. Mas também destrói as interpretações anteriores que deles foram sendo feitas, obrigando a que as críticas se revejam e (r)emendem.

            Da falta que fazem as poéticas, da segurança dos velhos Aristóteles e Horácio, já Garrett e Herculano se queixavam. Teoricamente, sobre este livro de Ana Luísa, poderia falar-se de relações intertextuais internas e externas (mas todos as têm – e lá vem ela outra vez com as suas ‘cebolas’): «Ah, quando eu escrevia/ de beijos que não tinha/ e cebolas em quase perfeição» (p.635). Que faz experimentações com o poema em prosa, com formas dramáticas – em diálogo ou monólogo. Que brinca com o soneto, recuperado e desmontado em forma e conteúdo. Que entrou pela tentação surrealista. Que desenvolve uma reflexão metapoética. Perante estas 654 páginas de poemas, muitas etiquetas haveria, e todas genuínas.

            O certo é que não há uma nomenclatura para ler este livro além daquela que a própria autora nos quiser oferecer (Kant dixit), e oferece disseminada pelos seus versos. Ana Luisa Amaral sabe disto. Diverte-a. E diverte-se na especulação de todas as possíveis combinações da linguagem, das suas regras e gramáticas, na exploração das formas tradicionalmente atribuídas à poesia (pelas poéticas) que questiona por dentro e por fora. Tal é atestado pelo nome que deu a este livro – Inversos – o contrário dos versos, ou o seu avesso: «Que mais fazer/ se as palavras queimam/ e tanta coisa em fumo em tanta coisa/ sarças ardentes do avesso/ o fogo em labaredas que mais/ fazer/[…] / Mas que fosse o castigo era melhor/ que estas nuvens de fumo na sarça/ do avesso e tudo do avesso/ nas palavras // que não chegam/ mas cegam». (p.635).

            As palavras não chegam, ficam aquém da experiência que se pretende dizer: «Todo o poema/ é um estado de paixão/ cortejando o reflexo/ daquele que o criou» (p.639) – o paradoxo de Narciso que, se agarrar a imagem sua que vê na água, a destrói. Cada poema é outra tanta tentativa de captar essa representação, arquetípica e elusiva. Uma contínua luta com um anjo, muito pessoal e pouco transmissível.

            H.B.

            Inversos – Poesia 1990-2010 – Ana Luisa Amaral – Dom Quixote, Lisboa, 2010, 656 pgs.

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              Categories: (na gaveta), literatura, poesia

              Saudações à Teodolito

              Posted on 14/11/2011 by hbarbas
              1 comment

              Foi dia 9, na FNAC, que Carlos da Veiga Ferreira apresentou uma nova chancela da sua responsabilidade: a Teodolito. Manteve a inicial da outra casa por ele dirigida, a Teorema, adquirida pela Leya. Conheci e acompanhei o trabalho da Teorema durante muitos anos, e fiquei muito zangada quando ele a vendeu. Este seu regresso ao terreno por conta própria numa altura em que practicamente todas as pequenas editoras foram devoradas pelo Grande Capital, dá-me alguma esperança.Uma nova chancela

              Muitos acham que basta ir ao supermercado comprar uma resma de papel e uma bic, ou um laptop, para se escrever um romance. Mas a LITERATURA com maiusculas e a sério nunca se compraz com facilitismos nem ignorâncias. Pede muita pestana queimada, muito rascunho. Não se compra e não se faz ao quilo.

              É evidente que a massificação nas grandes editoras lhes coloca um dilema – ou publicar os nomes já consagrados, ou o «best-seller» do momento; como têm que cumprir objectivos, marcha tudo o que é escrito por cão e gato. Não percebem que não podem controlar as cabeças, nem impingir eternamente gato por lebre. Fica de fora o investimento na paciência de ler manuscritos, e o risco de publicar desconhecidos pouco recomendados ou recomendáveis.

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                Categories: editoras, literatura

                Tão pós-modernista

                Posted on 08/11/2011 by hbarbas
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                Post-Modernism no Victoria & AlbertPasse  a snobeira, as grandes exposições inglesas que tive oportunidade de ver em recentes tempos foram uma barretaça. Os ingleses habituaram-nos aos grandes painéis históricos e cronológicos, cheios de fidelidade e fidedignidade. Quando se lembram de fazer as coisas à francesa – em abordagens temáticas – a água abunda.

                Descobri há pouco uma excepção, em que os dois sistemas misturados dão um resultado exaltante: Post-Modernism – Style and Subversion 1970-1990, que estará disponível até 15 de Janeiro de 2012 no Victoria & Albert. Não é muito grande, nem tem muitas peças, mas a combinatória e o percurso pelos vários espaços conseguem dar uma perspectiva fascinante sobre um movimento que sempre achei que não o era. Parte – e partem – da arquitectura, mostrando as fontes (renascentistas) que são parodiadas por Hans Hollein e Ron Rad, por exemplo. E isto estabelece um eixo que permite entender as restantes paródias e pastiches. Passando – naturalmente – por Andy Wahrol, e dando um peso inesperado a Grace Jones. O catálogo é para venda, mas cedem on-line um documento para professores (teachers resources) que resume bem o que se pode ver.

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                  Categories: artes plásticas, exposições

                  Hello world!

                  Posted on 06/11/2011 by hbarbas
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                  Para começar com música – a de Benny Godman a acompanhar Peggy Lee, em 1942 – «Why don’t you do right»?

                  Para quem gosta mais da versão da Jessica Rabbit, aqui fica o link – http://youtu.be/yy5THitqPBw

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                    Categories: música | Tags: cinema, jazz, música
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